quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Escrevendo paz - Descortinando Leon Tolstoi (escritor)


Somos formados de pedaços belos e feios, doces e amargos, convivendo entre si. Não só podemos, como devemos escrever sobre tudo, verdades, absurdos, sobre nada. Mas não há razão verdadeira para que mesmo que só escrevamos, armas, não possamos fazê-las disparar tiros de paz. Podemos até sentir complicada tristeza, mas o mesmo que sente sabe o que deseja, para mudar.

Experimente, mesmo que por economia, deixar de escrever por um momento, guerra; para escrever simplesmente, PAZ!

Joakim Antonio



"Cada um pensa em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar a sí mesmo." Leon Tolstoi - Pamphlets - translated from the Russian - página 71, Free Age Press, 1900




Leon Nikolaievitch Tolstoi (9 de setembro de 1828 - 20 de novembro de 1910). Foi um novelista, anarcopacifista e pensador moral, notável por suas idéias de resistência através da não violência. É considerado um dos maiores escritores de todos os tempos.

Além de sua fama como escritor, Tolstoi ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza.

Junto a Fiódor Dostoiévski, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, sobre as campanhas de Napoleão na Rússia, e Anna Karenina, onde denuncia o ambiente hipócrita da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura.

Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples.

Pacifismo

Tolstoi ficou famoso por ser um pacifista. Nas palavras de Mahatma Gandhi, com quem Tolstói trocou correspondência, o escritor foi o maior "apóstolo da não-violência". No livro "O Reino de Deus está em vós", Tolstoi baseia-se no Sermão da Montanha para afirmar que não se deve resistir ao mal utilizando-se do próprio mal.

No mesmo livro, continuando seu raciocínio pacifista, o escritor afirma ser contrário ao serviço militar obrigatório (e ao militarismo como um todo). Ele também defende e exalta povos como os Quakers, que buscam a simplicidade, a autonomia e não utilizam de violência. Fonte: Wikipédia


Para saber mais:


Tolstoi e a anti-pedagogia (uma proposta de educação libertária) em http://www.revistas.usp.br/

Grandes entrevistas - Leon Tolstoi em Tiro de letra


Baixar livros gratuitamente no site Universia:

Anna Karenina

Guerra e Paz 

Ressurreição




terça-feira, 27 de agosto de 2013

Tomando tempo - Retratos da Almas



Tomando tempo, coluna Palavra Expressa no site Retratos da Alma 


 Lhe trago imagens 
inconscientes 
para que 
de algum modo 
nossa alma 
pense

Lhe trago palavras 
impronunciadas 
para que 
de algum modo 
 nosso corpo
 grite 

Lhe trago momentos 
inesquecíveis 
para que 
de algum modo 
nosso coração


Clique abaixo para ler o texto completo




Imagem: Can't turn back time by shimoda

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ao sabor do vento - Descortinando Guillaume Apollinaire (escritor)



Tinha tanto medo de alturas
que nunca descera da árvore
adormeceu pensando
morrerei lagarta

Quando acordou e saiu do casulo
olhou-se admirada
agradeceu pelo novo olhar
agradeceu pelas nova cores
agradeceu pelas novas pernas
agradeceu por não precisar mais rastejar

Mas assim que agradeceu tudo que podia
olhou para o chão, teve medo e pensou
Deus pra que me dar tudo se a coragem não tenho
para que tanta beleza presa em uma árvore

Pediu se possível uma explicação
pediu se merecedora
ouvir a voz de Deus

Então um vento forte
soprou e derrubou-a do galho
desesperada começou a se debater
e então descobriu que podia voar

Agradeceu o recado
e nunca mais
parou de agradecer

Joakim Antonio


"Venham até a borda, ele disse. Eles disseram: Nós temos medo. Venham até a borda, ele insistiu. Eles foram. Ele os empurrou... E eles voaram."
Guillaume Apollinaire


Guillaume Apollinaire (nascido Wilhelm Albert Vladimir Apollinaris de Kostrowitzky, Roma, 26 de agosto de 1880 — Paris, 9 de novembro de 1918) foi um escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por sua poesia sem pontuação e gráfica, e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França, tais como o do Cubismo, além de ser o criador da palavra Surrealismo.

Sua obra literária e crítica anunciava os princípios de uma nova estética que tinha como fundamento a ruptura com os valores do passado. Os seus poemas, O bestiário ou o cortexo de Orfeo (1911), Álcoois (1913) e Calligrammes (1918) refletem a influência do simbolismo, com importantes inovações formais. Ainda em 1913, apareceu o ensaio crítico Os pintores cubistas, em defesa do novo movimento como superação do realismo. Wiki


Para saber mais:

Português

Quatro poemas de Guillaume Apolinaire em astormentas.com

Aqui alguns caligramas - poesia visual em antoniomiranda.com.br

English

All poems


Imagem: Into the Light by holydak

sábado, 24 de agosto de 2013

Sendo - Descortinando Paulo Leminki (poeta)

 
o Bandido que Sabia Latim 

Autocensura

Pensei em ter
algo de Paulo 
vê se pode 

Ririam ao dizer 
de Leminski 
só o bigode 


Passeio de dez agrupados

Palavras 
     saem e retornam 
agrupando-se 
     como gostam 

Letras 
     dez iguais 
x x x x x x x x x x 
     nada formam 
  

Joakim Antonio  



ERRA UMA VEZ

nunca cometo o mesmo erro
        duas vezes
já cometo duas três
        quatro cinco seis
até esse erro aprender
        que só o erro tem vez

HEXAGRAMA 65

Nenhuma dor pelo dano.
  Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
  nasce o dia mais bonito.

1 dia,
    1 mês, 1
     ano


Paulo Leminski 


"Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além"

Paulo Leminski 



Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto de 1944 — Curitiba, 7 de junho de 1989) foi um escritor, poeta, tradutor e professor brasileiro. 

Filho de Paulo Leminski Filho e Áurea Pereira Mendes. Mestiço de pai polonês com mãe negra, Paulo Leminski foi um filho que sempre chamou a atenção por sua intelectualidade, cultura e genialidade. Estava sempre à beira de uma explosão e assim produziu muito. É dono de uma extensa e relevante obra. Desde muito cedo, Leminski inventou um jeito próprio de escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais, trocadilhos, ou brincando com ditados franceses.

Em 2013 o livro organizado por Alice Ruiz "Toda Poesia" foi best seller. Neste mesmo ano se iniciou a exposição itinerante "Múltiplo Leminski" que já passou por Curitiba, Foz do Iguaçu, Goiânia, Recife e Salvador. Em 2014 foi lançado um disco duplo com suas composições intitulado Leminskanções (www.leminski.com.br). Estão previstos para o mesmo ano o lançamento do songbook com depoimentos de amigos, parceiros e intérpretes, o lançamento do acervo digital e o portal oficial www.pauloleminski.com.br



Conheça mais de Paulo Leminski: 

Instituto Paulo Leminski, com diversos links. 

Documentário Ervilha da Fantasia, para assistir online.

A música de Leminsky, por Estrela Ruiz Leminski.


Imagem original: Do filme "Ervilha da Fantasia", documentário de Werner Schumann, rodado em 1985, com Paulo Leminski, é o mais importante trabalho realizado sobre o poeta, onde ele descreve todo o seu pensamento sobre poesia, cinema, literatura, psicanalise e apresenta a sua obra.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Azul da cor do mar - Descortinando Nelson Rodrigues (escritor)



Jorge chega em casa e encontra seus amigos, Júlio e Carlos, conversando dentro do carro, então ele solta um sonoro oi, que é respondido com vários sinais para que não faça barulho. Sem entender nada ele, agora bem baixinho, pergunta:

- Me fala aí, o que tá pegando?

Eles se entreolharam e disseram juntos:

- Olha do outro lado da rua.

- Humm, a Clara, tia do Marquinhos, e dai?

- Como e daí, disse Carlos, você é cego?

- Claro que não, se eu estou vendo ela direitinho.

Júlio coloca as mãos na cabeça:

- Presta atenção Jorge, olha como ela está, não tem nada chamando sua atenção?

Jorge olha para dentro de casa, para os dois lados da rua, como se procurasse algo, então disfarçadamente olha para frente.

- Não acredito que é o que estou pensando?

- Mas é claro, diz Júlio, você viu? É azul, não é?

- Vocês estão parados aqui, só porque dá pra ver um pedaço da calcinha dela?

Carlos tenta se defender:

- Mas nessa meia hora que estamos aqui, quase deu pra ver algo mais.

- Meia hora? Você disse meia hora? Espero que minha mulher não ache que estou no carro com vocês. Deixa eu falar umas coisinhas para vocês.

Então Jorge passa um sermão nos amigos, enumerando todos os motivos por que deveriam sentir vergonha de estar fazendo isso, complementando com um, "Ninguém é mais criança aqui!".

Carlos e Júlio tentam se defender, em vão, e acabam concordando que é melhor ir embora, pois Jorge, além de chato, está chamando muita atenção e não vão conseguir ver mais nada ali, então Carlos dá partida no carro e sai falando alto:

- Tchau seu velhinho.

Enquanto Júlio coloca a cabeça fora do carro e grita também:

- Velhinhooooooooooooooo...

Jorge olha para Clara que, sem saber ser a causadora, ri da situação e diz:

- Liga não Jorge, amigo é assim mesmo, tudo doido.

Ele ri, dá um tchauzinho e abre o portão, mas na hora de trancá-lo, demora uns segundos a mais e dá uma nova olhada na Clara; então entra em casa devagar, aperta o passo no meio do quintal, entra pela porta e encontra sua mulher na sala, dá um beijo nela, deixa suas coisas e sai para o quintal de novo, já pegando a vassoura.

- Para que essa pressa toda querido?

- Você viu aquela calçada amor? Pelo amor de Deus, está um lixo só. Vou aproveitar essa meia horinha, antes do sol se por, e dar uma bela limpada nela, assim ainda aproveito um pouco da bela vista que está lá fora.

E saiu de pazinha, saco de lixo e vassoura em riste. Ao abrir o portão, acenou novamente para Clara e começou a limpar a calçada vagarosamente, enquanto ao mesmo tempo assobiava, Azul da cor do mar.

Joakim Antonio

 "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)." - Nelson Rodrigues

(Foto: Jarkiel Gonzgarowska)

Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 - Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) . Autor. Ao longo de sua trajetória artística, Nelson Rodrigues é alvo de uma polêmica que o faz conhecer tanto o sucesso absoluto, como em Vestido de Noiva, 1943, cuja encenação por Ziembinski marca o surgimento do teatro moderno no Brasil, quanto a total execração, como em Anjo Negro, 1948, ousada montagem para a época pelo Teatro Popular de Arte. Distante de qualquer modismo, tendência ou movimento, cria um estilo próprio e é hoje considerado um dos maiores dramaturgos brasileiros.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dilema - Descortinando Dorothy Parker (poeta)




A alma vive, o dilema da poesia:
ser toda dela, ou dividir-se,
entre ela e o vil metal.
Ser nele acompanhante,
ou nela marginal.
Entre eles, ser amante,
num ménage canibal.

Joakim Antonio



Unfortunate Coincidence

By the time you swear you’re his,
Shivering and sighing,
And he vows his passion is
Infinite, undying -
Lady, make a note of this:
One of you is lying.
 

Infeliz coincidência

E quando você jurar que é dele,
Bamba, suspirante,
E o homem jurar o amor nele
Infinito e incessante –
Lady, não se descabele:
Dos dois, um é farsante.

Dorothy Parker







Dorothy Parker (Long Branch, Nova Jérsei, 22 de agosto de 1893 — Nova Iorque, 7 de julho de 1967) foi uma escritora, poetisa, dramaturga e crítica estadunidense.

Ela se casou duas vezes, em 1917 e 1933, e adotou o sobrenome do primeiro marido. Dorothy foi educada em boas escolas particulares até abandonar os estudos aos 14 anos. Leitora voraz, cedo decidiu que escrever seria sua profissão. Em 1916 vendeu alguns poemas para a revista Vogue, e em seguida foi contratada: seu primeiro cargo foi escrever legendas para fotos e desenhos.

Em seguida ela se tornou crítica de teatro da revisa Vanity Fair, onde ela conheceu os intelectuais Robert Benchley e Robert Sherwood. Os três seriam o núcleo da lendária Mesa Redonda do Hotel Algonquin, ponto de almoço da inteligentzia nova-iorquina nos anos 1920. Além das críticas teatrais e literárias, Dorothy escreveu contos e algumas peças de teatro. Ela foi uma das pessoas que influenciaram a revista New Yorker, que simbolizou a cultura e a crítica de Nova Iorque durante décadas. Lá ela trabalhou de 1927 a 1933. Sua maior fama se deve ao senso de humor e língua venenosa, sempre encontrando um comentário ferino para fazer. Ela continuou escrevendo para a New Yorker, esporadicamente, até 1955. Sua última peça de teatro, Ladies of the corridor, foi de 1953.

A vida privada de Dorothy foi uma sucessão de casamentos infelizes, casos amorosos fracassados, abortos, tentativas de suicídio, dívidas e alcoolismo. Ela morreu em seu apartamento em Manhattan na companhia de seu poodle, Troy. 

(Fonte: Chambers Biographical Dictionary, 1990) Opiniao & Notícia


Para saber mais:

Português

  • Resumo bibliográfico, incluindo palavras da poeta em Blog Panorama
  • A Dependência Feminina do Telefonema Masculino: Humor em Dorothy Parker em Revista Eutonia (PDF) 

Inglês


Espanõl

  • Dorothy Parker, poeta e escritora estadounidense en Universia

Imagens 

2. Google Search

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Com a palavra, O poeta - Descortinando Cora Coralina (poeta)

Mulher sertanejalivre, turbulenta, cultivadamente rude...


Cora Coralina, de Goiás

Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina.

Cora Coralina, tão gostoso pronunciar esse nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando música de sereias antigas e de dona Janaína moderna.

Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o Governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada.

Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos:

"Vive dentro de mim/ uma cabocla velha/ de mau olhado,/acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo." "Vive dentro de mim/a lavadeira do rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão." "Vive dentro de mim/a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem-feito." "Vive dentro de mim/a mulher proletária./Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos." "Vive dentro mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha.../tão desprezada /tão murmurada...".

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Por onde passa - Descortinando Haroldo de Campos (poeta)



A poesia
Pede Campos

Há lugar
Há Campos

A poesia
Pede Haroldo


            Campos
Haroldo
            Campos



Joakim Antonio



EX/PLICAÇÃO


não há um 
sentido único
num 
poema 

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim 
en-
tão só fica o
ex
do ponto de 
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída


Haroldo de Campos
"Ex/plicação", A Educação dos Cinco Sentidos
Editora Brasiliense, São Paulo, 1985





Haroldo Eurico Browne de Campos (São Paulo, 19 de agosto de 1929 — São Paulo, 16 de agosto de 2003) foi um poeta e tradutor brasileiro. Haroldo fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros, como latim, inglês, espanhol e francês. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no final da década de 1940, lançando seu primeiro livro em 1949, O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia.

Em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como "Geração de 45". Fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista do grupo, de mesmo título. Nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretista, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando-se suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias".

Haroldo doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antonio Candido, tendo sido professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin.
Haroldo dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. Publicou, ainda, numerosos ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).

Faleceu em São Paulo, tendo publicado, pouco antes, sua transcriação em português da Ilíada, de Homero.

Obras

  • Xadrez de Estrelas (1976)
  • Signância: Quase Céu (1979)
  • Campos, Haroldo de. Galáxias. São Paulo: Editora 34, 1984. 127 p. ISBN 8573263008 (Acompanha CD no qual o poeta Haroldo de Campos grava 16 poemas do livro GALÁXIAS, acompanhado pela cítara de Alberto Marsicano - produzido por Arnaldo Antunes)
  • A Educação dos Cinco Sentidos (1985)
  • Crisantempo (1998)
  • A Máquina do Mundo Repensada (2001)

Prêmios e homenagens

  • Sua biografia foi incluída na Enciclopédia Britânica em 1997.
  • Foi o ganhador do Prémio Octavio Paz de Poesía y Ensayo, no México, em 1999.
  • Nesse mesmo ano, as Universidades de Yale e de Oxford organizaram conferências sobre sua obra em comemoração de seus setenta anos.
  • Foi vencedor do prêmio Jabuti em 1991, 1993, 1994, 1999 e 2002. Wiki

Para saber mais:

Entrevistas: Haroldo de Campos e a transcriação

Vídeos:
  • O poeta e gestor cultural Frederico Barbosa, responsável pelo acervo do poeta, e o músico e compositor Lívio Tragtenberg, parceiro de criação de Haroldo de Campos, falam sobre o poeta em Haroldo de Campos - Jogo de Ideias (2011) (Youtube)
  • "Metrópolis" faz homenagem aos 10 anos sem Haroldo de Campos em TV Cultura (CMAIS+)



Imagens:

1. Capa do livro, A educação dos cinco sentidos - Editora Iluminuras
2. Haroldo de Campos

domingo, 18 de agosto de 2013

Abacaxi



Volto minha atenção para o espaço em volta e noto que estranhamente, uma multidão se junta na rua bem abaixo de onde estou, ouço gritos histéricos das janelas, vejo pessoas de braços estendidos fazendo sinais, não compreendo, aliás, ainda não ouço fora, ainda estou perdido em meu próprio som interior, eu tento perguntar o que há, mas no meio dessa multidão será apenas um pio, olho novamente para o céu e estendo os braços em forma de cruz. Começo a sentir o vento me abraçando, como se quisesse me levar, também começo a ouvir uma canção quando ele me acaricia os ouvidos. Nunca me senti tão livre, nunca me senti tão solto. Apesar de meus novos olhos terem me metido nesse tremendo abacaxi.

Olhos estes, que mudaram hoje pela manhã, pois repentinamente olhei pela janela limpa ontem e me esqueci do amanhã, pensando o que fazia naquele cubículo, usando gravata num dia de extremo calor, falando ao telefone já meio surdo e sentido dores nas costas recurvadas, há muito, pelo peso dessa vida genérica, feliz por ser como todos. Mas naquela hora, com novos olhos eu a vi, a moça mais linda do mundo, num vestidinho solto, sorrindo aberto, pele corada e cabelos ao vento, praticamente uma música valsando na partitura da rua, cujo corpo cantava, sou feliz assim. Eu ainda estava com as roupas do escritório, mas talvez, só talvez, ela tenha guardado a cor dos meus olhos, esse instrumento tão mal usado por nós, mas apreciado pelo brilho que grita e atesta, estou vivo. Será que por um acaso do destino ela me viu, enquanto eu apreciava da janela do escritório, ela comendo um pedaço de abacaxi?

Não me contive e saí correndo para encontrá-la, mas ela não estava mais lá, perguntei ao senhor da banquinha e ele disse que não se lembrava dela, como pode, que pessoa é essa que não presta atenção nos seus semelhantes, com certeza aquele sorriso devia ser de plástico ou cirurgicamente esculpido, afinal, quem sorri verdadeiramente sem prestar atenção no outro, meus olhos a viram sorrindo e ele também, bom, de qualquer modo precisava achar um jeito de encontrá-la. Dei uns poucos passos, olhei em volta e para cima, vi um mirante perfeito, então subi correndo com o dinheiro na mão, pois vejam que absurdo, o senhor da banquinha não tinha mais abacaxi.

Confesso que não sei o que aconteceu no meio do caminho, só lembro vagamente, enquanto subia, de pegar alguma coisa de uma senhora e um ninho para servir de chapéu, pois o sol está quente demais. Agora, uma coisa eu lembro bem, ao mesmo tempo em que procurava por minha musa, apreciava a vista da prainha, tão linda daqui de cima. De repente um grito quebra o silêncio e me vejo novamente aqui, alguém grita algo incompreensível e outra voz se junta à dele, e mais uma, e mais outra, então ouço claramente centenas deles, agora com uma faixa improvisada, gritando juntos: “Não se jogue, não se jogue.”, eles pensam que eu vim para me jogar, não sabem que agora é que peguei o gosto de observar o bom da vida. Mas de repente eu a vejo, aquela que tentei achar a tarde inteira, ela me olha com uma cara triste, será que sabe? Será que ela também conseguiu mirar meu rosto, será que realmente não posso voar, será que paguei as contas do banco, será que a boca dela tem gosto de abacaxi?

Tento acenar para ela e me desequilibro no parapeito, todos gritam desesperados, mas me arrumo e grito que não vá embora, ninguém me ouve é claro e ela coloca as mãos no rosto, olha para o chão e sem aguentar começa a ir embora, eu num ímpeto de conhecê-la, tocá-la, provar abacaxi, me esqueço sem asas e dou um passo... Gritaria geral, enquanto caio o tempo congela, vejo-a movendo-se em câmera lenta, pensar demasiadamente rápido é um veneno nessas horas, não vejo o que foi minha vida passar na minha frente como dizem, mas vejo o que seria minha vida com ela passar, do começo ao fim, já velhinhos com filhos, netos e um sítio, de mãos dadas e o sabor eterno de seu beijo, com gosto de abacaxi. Enquanto a observo, congelado no tempo, ouço todos gritando um não em uníssono e pisco, sinto um impacto forte na cintura, todo o ar sai dos meus pulmões instantaneamente, sinto minhas pernas baterem no concreto armado e inacreditavelmente, não há dor, apenas um torpor e uma voz grossa, no começo incompreensível, mas identificável ao terminar de piscar, um bombeiro amarrado a uma corda me agarrou pela cintura na hora do pulo, então desmaio pensando no perfume dela, de essência de abacaxi.

Acordo sendo levado para a ambulância e ouço várias vozes, a maca para por um instante e umas crianças gritam, "Moço, moço o senhor é doido?", outras pessoas passam e alguém diz, "Ele pensou que fosse um pássaro", "Um maluco", "Trabalho com ele, saiu correndo da sala hoje, que nem louco!". Já dentro da ambulância, reflito e vejo que foi mesmo loucura, não há como achar alguém assim e... De repente sinto um cheiro característico, tento sair da maca e alguém me segura, tenho certeza que é ela, então grito, "Te amo, te quero, pra sempre!", o enfermeiro pergunta com quem estou falando e faço um gesto para a porta da ambulância, ele então abre devagar e o cheiro aumenta, o enfermeiro pede para a pessoa aparecer na porta, meu coração dispara, eu sei que é ela, sinto o cheiro aumentar e também sei que só ela teria esse cheiro maravilhoso de... "Oi moço, ah eu te conheço de hoje à tarde, ainda vai querer? Tô cheio de abacaxi!".



Joakim Antonio


Photo by Arthur Elgort

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Também poesia - Descortinando Millôr Fernandes (poeta)



As pessoas
o admiram
riem e se
espantam
tanto
que muitas vezes
esquecem
não sabem
nem imaginam
o poeta
que cria
brilha
inventa
sorri
e se
apresenta
dentro
de ti

Joakim Antonio


Poeminha: Última Vontade
Millôr Fernandes


Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossêgo
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre fôlhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa
haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora
Preso à angustia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuvas ocasionais,
Estes sim, imortais
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.



Milton Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, foi um poeta, desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista brasileiro.

Começou a trabalhar ainda jovem na redação da revista O Cruzeiro, iniciando precocemente uma trajetória pela imprensa brasileira que deixaria sua marca nos principais veículos de comunicação do país. Em seus mais de 70 anos de carreira produziu de forma prolífica e diversificada, ganhando fama por suas colunas de humor em publicações como Veja, O Pasquim e Jornal do Brasil, entre várias outras.

Em seus trabalhos costumava valer-se de expedientes como a ironia e a sátira para criticar o poder e as forças dominantes, sendo em consequência confrontado constantemente pela censura. Dono de um estilo considerado singular, era visto como figura desbravadora no panorama cultural brasileiro, como no teatro, onde destacou-se tanto pela autoria quanto pela tradução de um grande número de peças.

Com a saúde fragilizada após sofrer um acidente vascular cerebral no começo de 2011, morreu em março de 2012, aos 88 anos. Wiki


Poesia
  • 1967 – Papaverum Millôr (Prelo. Edição revista e ilustrada publicada pela Nordica em 1974)
  • 1968 – Hai-kais (Senzala)
  • 1984 – Poemas (L&PM)

Para saber mais:


Imagens:

1. Capa do livro de Poesia Papáverum de Millôr Fernandes
2. Millôr Fernandes por Cynthia Brito

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Concursos Literários do Mês de Agosto de 2013




Concursos Literários do Mês de Agosto de 2013



Confira também a lista completa dos Concursos do Ano e a lista das Seleções Permanentes.

As datas nos tópicos referem-se ao prazo limite para realizar a inscrição.


Legenda:
$ - Prêmio em dinheiro
@ - Inscrição pela internet
# - Voltado a público restrito


Agosto (em aberto)

16.08.2013 - 3º Concurso Cultural “Poesia Urbana” (Poesias - @)

Informações:

a) Concurso de Poesias
b) Inscrição pelo site do concurso

Premiação:

I) 10 poemas serão recitados em evento e impressos em cartões postais

Prazo: 16 de Agosto de 2013
16.08.2013 - XXIII Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho ($)


Informações:
a) Concurso de Contos

Premiação:
I) Prêmio em Dinheiro

Prazo: 16 de Agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Caos e Ordem - Descortinando Murilo Mendes (poeta)



O caos é bom
O caos é mau
Cubramos ele com uma pá de cal

Um caso do bem
Um caso do mal
Casemos a Ordem com o Caos

Uma calmaria
Uma discussão
Façamos vista grossa aos cristãos

A mão direita
A mão esquerda
Apaguemos com uma o que a outra escreva

Um leve sussurro
Um gigantesco grito
Finjamos de surdo a olhos vistos

O guia espiritual
O guia de ruas
Ouçamos o poeta e suas loucuras

A casa de cima
A casa de baixo
Fiquemos todos meio estáticos

O poeta da ordem
O poeta do caos
Decidamos qual é quem e quem é qual


Joakim Antonio



"Sou um espírito dialético, eu busco a lógica oculta entre a sensualidade e cristianismo, racionalismo e irracionalismo". - Em entrevista à Revista Veja, em setembro de 1972






Murilo Monteiro Mendes (Juiz de Fora, 13 de maio de 1901 — Lisboa, 13 de agosto de 1975) foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

Será Possível? - Retratos da Alma



Será Possível?, coluna Palavra Expressa no site Retratos da Alma 


Será possível? 
Aquele cara jogou fora 
A esperança do filho 

 Ainda não acredito 

Que pessoas tentam
Ditar destinos 

 Será possível? 

Aquela senhora distinta 
Rejeitando a amiga 

 Ainda não acredito 

Que pessoas




Clique abaixo para ler o texto completo




Imagem Original: Old man by MaraDamian

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um minuto de silêncio - A noite dos poetas assassinados



Quando um poeta morre, a natureza cala-se.


Joakim Antonio


      A noite dos poetas assassinados


© Jane Bichmacher de Glasman*

      O ano é 1952, último ano da vida de Stalin. O lugar, Rússia, União Soviética. O dia, 12 de agosto. Mais especificamente, a noite de 12 para 13 de agosto de 1952.
      Nesta data, cerca de 15 judeus soviéticos, incluindo os mais proeminentes escritores, poetas, e artistas judeus russos de língua ídishe foram secretamente julgados e condenados por crimes capitais, incluindo traição, espionagem e nacionalismo burguês.
      Eles eram visados devido à sua participação no Comitê Anti-Fascista Judaico e à sua resposta como judeus às atrocidades nazistas no território soviético ocupado.
      Nesta noite eles foram executados por ordem de Josef Stalin, no calabouço da infame prisão da praça Lubyanka em Moscou.
      Entre as vítimas estavam Peretz Markish, David Bergelson, Itzik Fefer, Leib Kvitko, David Hofstein, Benjamin Zuskin, Solomon Lozovsky, Boris Shimeliovich Dovid Bergelson e Der Nister.
      A data é lembrada como a “noite dos poetas assassinados.”

Itzik Fefer, Albert Einstein e Solomon Mikhoels, em 1943

      Seus escritos mostram pouco da nostalgia ou devoção que vemos nas descrições da cultura ídishe[1] o pré-Holocausto. Todos eles - os poetas Peretz Markish, Dovid Hofshteyn, Itzik Fefer, Leyb Kvitko e o novelista Dovid Bergelson - assistiram a Revolução soviética em 1917. A maioria havia se mudado do shtetl[2], das aldeias da Pale[3], para Kiev e Moscou, em busca de liberdade intelectual e artística no fervor do modernismo do princípio do século XX. Todos apoiaram o estado comunista emergente.

Ouvimos sua vibração na abertura do poema[4] sem título de Markish:

Eu não sei se eu estou em casa
ou desabrigado.
Estou correndo, minha camisa
sem botões, sem limites, ninguém
me segura, sem começo,
sem fim
meu corpo é espuma
cheiro de vento
Agora 
é meu nome.

Seu sentido do futuro ecoa na estrofe do poema “Cidade” de Hofshteyn:

Cidade!
Eu cheguei em teu porto
no navio de minha solidão.
O navio de minha solidão…
Eu lavei suas velas
nos ventos…
Elas definharam e rasgaram
nos comprimentos e nas larguras
do mundo.

      Eram férteis escritores. Após anos no exterior, em Berlim e na Palestina, de 1923 a 1926, Hofshteyn retornou à União Soviética e publicou numerosos volumes de poesia e traduções. Markish fundou o movimento ídishe modernista conhecido como Khaliastre durante seus anos em Varsóvia. Após seu retorno à Rússia, foi-lhe concedido o Prêmio Lênin de Literatura em 1939. Fefer editou os jornais ídishes Prolit e Desafio e tornou-se membro da União de Escritores Soviéticos. Em 1943, viajou aos Estados Unidos com o ator Solomon Mikhoels atraindo audiências maciças em Nova York em apoio ao trabalho da liga Anti-Fascista.

Por que eles foram assassinados?

      Todos estavam relacionados ao Comitê Anti-Fascista Judaico, estabelecido em 1942 pela União Soviética para atrair o apoio das comunidades judaicas dos Países Aliados na guerra contra Hitler. Com o fim da guerra, a organização já não era mais útil a seus propósitos. Stalin, como soía fazer, virou-se contra seus líderes. Prendeu a maioria entre 1948 e 1949, levou a julgamento em 1952 – culminando com sua execução na noite de 12 de agosto no porão da prisão Lubyanka.
      As mortes destas figuras centrais na literatura ídishe soviética representaram novo golpe à cultura judaica já devastada pelo Holocausto. Silenciaram o núcleo remanescente de intelectuais ativos politicamente e excluíram presumir que tal cultura pudesse sobreviver na Rússia pós-guerra.
      É difícil para alguns de nós recordar agora o otimismo inicial inspirado pela revolução soviética. Tendemos a ter pouca simpatia pelos escritores que compuseram cantos para os trabalhadores ou para Stalin, como vários destes homens.
      Mas com isto nós nos esquecemos de nossas próprias vidas: como nos comprometemos para ganhar a vida; como um ano se transforma 5, em 10; como permanecemos em um trabalho ou em um relacionamento demasiado longo, sem esperança, ou porque nós amamos.
      Esquecemos também das difíceis opções dos artistas judeus daquela época, já estranhos às suas tradições, que não obstante criaram um lar, tentando realizar em alguma medida sua esperança. E esquecemos da ruína gradual mas catastrófica forjada por Stalin.

Uma voz mais pungente para o que foi perdido pode ser ouvida no clamor de Hofshteyn:

Meu amor, meu amor puro!
uma chamada a que sempre atentei
muda, carreguei-a
mil dias:
acima da cabeça cinzenta de meu povo,
para ser
um brilho jovem!

Brilho desperdiçado: interrompido, silenciado e recordado como o que se torna tão distante...
Honremos sua memória com alguns versos destes poetas.

Como seu fim, profética e tragicamente anunciado por Kvitko, em 1919, em “Morte Russa”:

Morte russa

é toda a morte.
Dor russa
é toda a dor.
Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?
Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Publicado em Visão Judaica Ed. 62, outubro de 2007. (PDF)

* Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica -USP, Professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos –UERJ, escritora.

[1] Ídishe- idioma judaico originado do alemão grafado em caracteres e com muitos vocábulos hebraicos.

[2] Shtetl (do ídishe: cidadezinha) é o nome ídishe das cidades judaicas na Europa oriental (Polônia, Rússia, Belarus 
etc.). 
[3] Sob o governo czarista, os judeus não tinham permissão para viver fora do Território de Assentamento (Pale), uma região da Rússia, onde, até 1907, massacres eram uma ocorrência comum. 
[4] Os poemas foram traduzidos pela autora deste artigo. Para ler mais deles e sobre eles contate a mesma. 


Para saber mais:

Português

  • Judeus na União Soviética (1917-1991) em Cybersio

English

  • Night of the Murdered Poets, with more links in Wikipedia


Imagens:

1. Silence by fokkusunm
2. Itsik Fefer and Shlomo Mikhoels meet with Albert Einstein. Princeton, 1943. (YIVO Archives)

sábado, 10 de agosto de 2013

O centenário grapiúna - Descortinando Jorge Amado (escritor)


Óia lá, lá vem o bom baiano, vem andando sem pressa, nos seus, também bons, cem anos; trás lápis e papel na mão, já na cabeça, chapéu panamá e pura inspiração. Sabe de onde ele vem, vem de um grande país, O País do CarnavalCacauSuor e lágrimas, de sincretismo religioso, onde vive o misterioso Jubiabá.

Esse bom baiano é mestre das águas, já navegou pelo Mar morto, guiando Capitães da areia e declamando poesias, apresentando a eles A estrada do mar. Ele sabe de cor o ABC de Castro Alves e também luta, assim como O cavaleiro da esperança, daqui até essas Terras do Sem-Fim, chegando a São Jorge dos Ilhéus e passando pela Bahia de Todos os Santos, que ele conhece como a palma da mão. Apresentando os lutadores da Seara vermelha, buscadores de melhores condições de vida, ganhando o pão diário e buscando O amor do soldado, que não é viver em guerra e sim buscar O mundo da paz, seja aos olhos de todos, ou percorrendo Os subterrâneos da liberdade.

Apreciador da beleza feminina, nunca nos deixou esquecer Gabriela, cravo e canela, menina brejeira e simples, que é leve como a brisa e forte como o furacão. Talvez sabendo que se eternizaria, não tinha medo de falar da morte, em especial, A morte e a morte de Quincas Berro d'Água.

Era amigo de todos, entre eles, os capoeiras do terreiro, Os velhos marinheiros ou o capitão de longo cursoOs pastores da noite e O Compadre de Ogum, talvez até esse último tenha notado primeiro, o que havia entre Dona Flor e Seus Dois Maridos. Também fez vários amigos na Tenda dos milagres, onde, a boca pequena, corria a história de Teresa Batista cansada de guerra.

Grande observador da vida sempre dizia a sua filha, “O mundo só vai prestar, para nele se viver, no dia em que a gente ver casar, O gato Malhado e a andorinha Sinhá. Saindo os dois a voar, o noivo e sua noivinha, Dom Gato e Dona Andorinha.”; já para os adultos, adorava contar a volta e as reviravoltas que causara Tieta do Agreste, inclusive para seus pares da academia, mesmo não gostando de usar o que lá era moda, a Farda, fardão, camisola de dormir, que lá era obrigatória.

Desejava a todos, liberdade de ser, assim como a natureza e, Do recente milagre dos pássaros, tudo sabia o grande homem do litoral, que nunca deixaria de ser O menino grapiúna, que se alegra e ri alto, de histórias divertidas como A bola e o goleiro, que lhe tiravam do universo sombrio da Tocaia grande, fazendo com que espairece-se e não pensasse em nada mais, não se preocupando nem com O sumiço da santa.

Gostava de lembrar-se dos bons tempos, da Navegação de cabotagem, e puxar conversa sobre a cultura árabe, que ele chamava de A descoberta da América pelos turcos, influenciando não só a cultura baiana e brasileira, mas também o mundo, se houvesse tempo, falaria sobre O milagre dos pássaros, histórias da Hora da Guerra, que só ele sabia contar.

No final, nenhuma história acabou, ninguém morreu, alguns choraram, mas todos, sem exceção, sorriram por poderem se deliciar com as histórias do grande, ou melhor, eterno grapiúna; que trazia no nome, um delicioso destino.

Parabéns Amado Jorge e obrigado!

(Texto em comemoração ao centenário de Jorge Amado, em 2012.)



Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A primeira lição - Descortinando Philip Larkin (poeta)



A primeira lição
É este quebra-cabeça:
Eu sou, Tu és, Deus é;
Palavras são cercas.


Joakim Antonio


A primeira coisa 
Que entendi foi esta:
Tempo é o eco de um machado
Dentro da floresta.


Philip Larkin

A primeira coisa - Tradução: Luiz Roberto Guedes.




Philip Arthur Larkin (Coventry, 9 de Agosto de 1922 – 2 de Dezembro de 1985) nasceu em Coventry, Inglaterra.

Um dos mais destacados poetas britânicos modernos, estreou com Night Ship (1945) e publicou, entre outros, The Whitsun Weddings (1965), High Windows (1974) e Aubade (1977).

Após se graduar em língua inglesa e literatura na Universidade de Oxford, em 1943, Larkin virou bibliotecário e passou 30 anos de sua vida cuidando da biblioteca na Universidade de Hull. Philip fazia parte do grupo de poetas ingleses The Movement, juntamente com Elizabeth Jennings, Kingsley Amis e Thom Gunn. Em 1984, declinou de ser nomeado poeta laureado alegando não dispor de tempo para os compromissos decorrentes dessa posição. Morreu de câncer, aos 63 anos, exatamente como seu pai, que morreu da mesma causa, com a mesma idade, e que também foi bibliotecário.

Era certamente um dos poetas prediletos de John Lennon: curiosamente, as canções Imagine e Working Class Hero parecem ressoar temas de Larkin.


Para saber mais:

Português 



English



Imagens originais:

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Reunião de família - Descortinando Sara Teasdale (poeta)



E todos vieram
não como esperado
pois alguns
não queria mais ver

Chegaram tagarelas
em ordem cronológica
contando segredos
para todos verem

Falavam aos olhos
olhando coração
apontando seu dedos
todos para mim

Um grande cordeiro
na sala de estar
branco e negro
de impaciência aflita

Reunião ingrata e precisa
de palavras indelicadas
mas eu sempre soube
que lembranças agem assim

Joakim Antonio


A bola de cristal

Eu vou reunir-me a meu eu novamente,
Pegar meus pedaços dispersos e torná-los um.
Vou fundi-los numa bola de cristal brilhante
Onde verei a lua e o sol revezando-se.

Devo sentar como a sibila, dedicando horas a fio.
Observando o futuro chegar e o presente partir -
E imagens mutáveis de pessoas apressadas
Em seus pequenos egos pra lá e pra cá.

The Crystal Gazer by Sara Teasdale 



Sara Teasdale (8 de Agosto de 1884 - 29 de Janeiro de 1933), foi uma poetisa norte-americana ganhadora do Pulitzer Prize.

Nascida em família privilegiada, foi educada em várias escolas particulares, locais onde começou a escrever poesia. Fundou com amigos o jornal The Potter's Wheel, que contribuiu para a publicação e divulgação de seus primeiros poemas. Apesar da fama e prestígio crescentes obtidas com a divulgação de sua obra, Sara sentia-se infeliz e solitária. Sua obra trazia como temas recorrentes os sentimentos de desilusão e ânsia por um amor que não vem. Em 1918 foi homenageda com o Pulitzer Prize por sua coletânea Love Songs de 1917. Após anos de depressão solitária e desgaste físico provocado por uma pneumonia, se matou com overdose de barbitúricos aos 48 anos.


Em Português:

Você encontra poucos poemas traduzidos na web, aqui uma lista de locais:

Mima PumpkinRecantodasletrasUmbelarteCantodaalmaGrabois.org e Da condição humana


Em inglês:

Poems in http://poetry.poetryx.com/poets/74/
Ebooks in  http://www.gutenberg.org/ebooks/author/223


Imagens originais:

  1. Outdated memories by ciasteckoowa
  2. Sara Teasdale by xabigal-eyes

Passeio




Hoje eu acordei
acendi a luz
levantei da cama
lavei o rosto
abri a janela
varri o chão
movi os móveis
e saí

Hoje eu fui ao parque
andei descalço
fui no balanço
vi um esquilo
subi na árvore
desci correndo
fugi do guarda
e saí

Hoje eu comi doce
passei na doçaria
comi chocolate
tomei sorvete
comi torta
chupei bala
doeu a barriga
e saí

Hoje eu reencontrei
caminho esquecido
inspiração nova
sorriso amigo
sol aberto
céu azul
ganhei vida
e voltei


Joakim Antonio



Imagem:  Swing life away by powintroduction

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