segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Nova safra



Há quem tome tanto café, que depois de morrer, nem ao menos será cremado. Mas devidamente torrado, moído e empacotado a vácuo.

Joakim Antonio


Imagem: Cuppa Coffee by Tomkufarmazz

domingo, 30 de agosto de 2015

Preciso




Descente 
racha cabeças

não há sutilezas

sangue farto
escorre das mãos

mancha o teclado

boca certa
gosto ferroso

língua bifurca cala

escorre dos olhos 
transforma letras

alimenta o machado

depois adormece
feito criança

o sono dos justos


Joakim Antonio


Imagem: Axe head by Evillatenighttv

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Ao Deus sem sobrenome - Palavra Expressa



Que Deus permita 
Que tudo seja escolha 
Que não haja tempo correto 
Momento certo 

Que Deus permita 
Que tudo se repita 

Que Deus permita 
Que tudo seja escolha 
Que não haja alma gêmea 
Pessoa prometida 


Que Deus permita
Que tudo se repita

Que Deus permita
Que tudo seja escolha
Que não haja choro infinito
Imutável destino

Que Deus permita
Que tudo se repita

Que Deus permita
Que tudo seja escolha
Que vinguem os renovos
Choro, riso e gozo

Que Deus permita
Que tudo se repita

Amém


Joakim Antonio 





Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


Imagem: To God by Kidthink

Teu olhar


Assim que te vi, teu olhar me toucou, sem nem ao menos saber tua história. Teus olhos refletiram meu peito. Tua órbita adentrou a minha e, naquele instante, eu soube, preciso saber mais dessa gravidade que habita em ti. 

Isto feito, só consegui pensar em paz, em caminhos e em nós, que olhamos a beleza, somente depois de afastarmos os espinhos, nos ludibriando de que todo caule é suave, nos esquecendo que por trás de toda rosa exposta, há um sequestro, do algo que falta em nós.

Joakim Antonio


Imagem: Uma menina no campo de refugiados Makpandu no Sudão do Sul, 44 km ao norte de Yambio, onde mais que 4.000 pessoas se refugiaram no final de 2008, quando o Exército de Resistência do Senhor atacou suas comunidades dentro da República Democrática do Congo. Ataques do LRA no interior do Sul do Sudão e na República Democrática do Congo vizinho e República Centro-Africano deslocaram dezenas de milhares de pessoas, e muitos temiam que os ataques iriam aumentar à medida que o governo de Cartum utilizasse o LRA para desestabilizar o Sudão do Sul, onde as pessoas estavam preparadas para votar sobre a independência em janeiro de 2011. Agentes pastorais católicas estavam acompanhado as pessoas deste campo desde o início. NOTA: Em julho de 2011 o Sudão do Sul tornou-se o país independente do Sudão do Sul.

COPYRIGHT:Paul Jeffrey

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Elogio



E foi o maior elogio, que alguém poderia lhe dar. Tirou até os olhos do livro, só pra ver você passar. 


Joakim Antonio




Imagem: Where books take me by Missunfortunate

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Ao sabor do vento - Descortinando Guillaume Apollinaire (escritor)



Tinha tanto medo de alturas
que nunca descera da árvore
adormeceu pensando
morrerei lagarta

Quando acordou e saiu do casulo
olhou-se admirada
agradeceu pelo novo olhar
agradeceu pelas nova cores
agradeceu pelas novas pernas
agradeceu por não precisar mais rastejar

Mas assim que agradeceu tudo que podia
olhou para o chão, teve medo e pensou
Deus pra que me dar tudo se a coragem não tenho
para que tanta beleza presa em uma árvore

Pediu se possível uma explicação
pediu se merecedora
ouvir a voz de Deus

Então um vento forte
soprou e derrubou-a do galho
desesperada começou a se debater
e então descobriu que podia voar

Agradeceu o recado
e nunca mais
parou de agradecer

Joakim Antonio


"Venham até a borda, ele disse. Eles disseram: Nós temos medo. Venham até a borda, ele insistiu. Eles foram. Ele os empurrou... E eles voaram."
Guillaume Apollinaire


Guillaume Apollinaire (nascido Wilhelm Albert Vladimir Apollinaris de Kostrowitzky, Roma, 26 de agosto de 1880 — Paris, 9 de novembro de 1918) foi um escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por sua poesia sem pontuação e gráfica, e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França, tais como o do Cubismo, além de ser o criador da palavra Surrealismo.

Sua obra literária e crítica anunciava os princípios de uma nova estética que tinha como fundamento a ruptura com os valores do passado. Os seus poemas, O bestiário ou o cortexo de Orfeo (1911), Álcoois (1913) e Calligrammes (1918) refletem a influência do simbolismo, com importantes inovações formais. Ainda em 1913, apareceu o ensaio crítico Os pintores cubistas, em defesa do novo movimento como superação do realismo. Wiki


Para saber mais:

Português

Quatro poemas de Guillaume Apolinaire em astormentas.com

Aqui alguns caligramas - poesia visual em antoniomiranda.com.br

English

All poems


Imagem: Into the Light by holydak

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Presente de grego


Pediu com tanta fé, que lhe nasceram asas. Correu todo contente para o prédio mais alto e se jogou. Sentiu o vento cortante no rosto, enquanto das janelas todos apontavam incrédulos, alguns histéricos gritavam ser obra do demônio, outros ajoelhados exclamavam ser obra de Deus. E ele, enquanto rodopiava e caía sem controle, pensava: devia ter testado essa bosta antes.


Joakim Antonio 



Imagem: The Fall by Chasingartwork

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sendo - Descortinando Paulo Leminki (poeta)

 
o Bandido que Sabia Latim 

Autocensura

Pensei em ter
algo de Paulo 
vê se pode 

Ririam ao dizer 
de Leminski 
só o bigode 


Passeio de dez agrupados

Palavras 
     saem e retornam 
agrupando-se 
     como gostam 

Letras 
     dez iguais 
x x x x x x x x x x 
     nada formam 
  

Joakim Antonio  



ERRA UMA VEZ

nunca cometo o mesmo erro
        duas vezes
já cometo duas três
        quatro cinco seis
até esse erro aprender
        que só o erro tem vez

HEXAGRAMA 65

Nenhuma dor pelo dano.
  Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
  nasce o dia mais bonito.

1 dia,
    1 mês, 1
     ano


Paulo Leminski 


"Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além"

Paulo Leminski 



Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto de 1944 — Curitiba, 7 de junho de 1989) foi um escritor, poeta, tradutor e professor brasileiro. 

Filho de Paulo Leminski Filho e Áurea Pereira Mendes. Mestiço de pai polonês com mãe negra, Paulo Leminski foi um filho que sempre chamou a atenção por sua intelectualidade, cultura e genialidade. Estava sempre à beira de uma explosão e assim produziu muito. É dono de uma extensa e relevante obra. Desde muito cedo, Leminski inventou um jeito próprio de escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais, trocadilhos, ou brincando com ditados franceses.

Em 2013 o livro organizado por Alice Ruiz "Toda Poesia" foi best seller. Neste mesmo ano se iniciou a exposição itinerante "Múltiplo Leminski" que já passou por Curitiba, Foz do Iguaçu, Goiânia, Recife e Salvador. Em 2014 foi lançado um disco duplo com suas composições intitulado Leminskanções (www.leminski.com.br). Estão previstos para o mesmo ano o lançamento do songbook com depoimentos de amigos, parceiros e intérpretes, o lançamento do acervo digital e o portal oficial www.pauloleminski.com.br



Conheça mais de Paulo Leminski: 

Instituto Paulo Leminski, com diversos links. 

Documentário Ervilha da Fantasia, para assistir online.

A música de Leminsky, por Estrela Ruiz Leminski.


Imagem original: Do filme "Ervilha da Fantasia", documentário de Werner Schumann, rodado em 1985, com Paulo Leminski, é o mais importante trabalho realizado sobre o poeta, onde ele descreve todo o seu pensamento sobre poesia, cinema, literatura, psicanalise e apresenta a sua obra.

domingo, 23 de agosto de 2015

Azul da cor do mar - Descortinando Nelson Rodrigues (escritor)



Jorge chega em casa e encontra seus amigos, Júlio e Carlos, conversando dentro do carro, então ele solta um sonoro oi, que é respondido com vários sinais para que não faça barulho. Sem entender nada ele, agora bem baixinho, pergunta:

- Me fala aí, o que tá pegando?

Eles se entreolharam e disseram juntos:

- Olha do outro lado da rua.

- Humm, a Clara, tia do Marquinhos, e dai?

- Como e daí, disse Carlos, você é cego?

- Claro que não, se eu estou vendo ela direitinho.

Júlio coloca as mãos na cabeça:

- Presta atenção Jorge, olha como ela está, não tem nada chamando sua atenção?

Jorge olha para dentro de casa, para os dois lados da rua, como se procurasse algo, então disfarçadamente olha para frente.

- Não acredito que é o que estou pensando?

- Mas é claro, diz Júlio, você viu? É azul, não é?

- Vocês estão parados aqui, só porque dá pra ver um pedaço da calcinha dela?

Carlos tenta se defender:

- Mas nessa meia hora que estamos aqui, quase deu pra ver algo mais.

- Meia hora? Você disse meia hora? Espero que minha mulher não ache que estou no carro com vocês. Deixa eu falar umas coisinhas para vocês.

Então Jorge passa um sermão nos amigos, enumerando todos os motivos por que deveriam sentir vergonha de estar fazendo isso, complementando com um, "Ninguém é mais criança aqui!".

Carlos e Júlio tentam se defender, em vão, e acabam concordando que é melhor ir embora, pois Jorge, além de chato, está chamando muita atenção e não vão conseguir ver mais nada ali, então Carlos dá partida no carro e sai falando alto:

- Tchau seu velhinho.

Enquanto Júlio coloca a cabeça fora do carro e grita também:

- Velhinhooooooooooooooo...

Jorge olha para Clara que, sem saber ser a causadora, ri da situação e diz:

- Liga não Jorge, amigo é assim mesmo, tudo doido.

Ele ri, dá um tchauzinho e abre o portão, mas na hora de trancá-lo, demora uns segundos a mais e dá uma nova olhada na Clara; então entra em casa devagar, aperta o passo no meio do quintal, entra pela porta e encontra sua mulher na sala, dá um beijo nela, deixa suas coisas e sai para o quintal de novo, já pegando a vassoura.

- Para que essa pressa toda querido?

- Você viu aquela calçada amor? Pelo amor de Deus, está um lixo só. Vou aproveitar essa meia horinha, antes do sol se por, e dar uma bela limpada nela, assim ainda aproveito um pouco da bela vista que está lá fora.

E saiu de pazinha, saco de lixo e vassoura em riste. Ao abrir o portão, acenou novamente para Clara e começou a limpar a calçada vagarosamente, enquanto ao mesmo tempo assobiava, Azul da cor do mar.

Joakim Antonio

 "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)." - Nelson Rodrigues

(Foto: Jarkiel Gonzgarowska)

Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 - Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) . Autor. Ao longo de sua trajetória artística, Nelson Rodrigues é alvo de uma polêmica que o faz conhecer tanto o sucesso absoluto, como em Vestido de Noiva, 1943, cuja encenação por Ziembinski marca o surgimento do teatro moderno no Brasil, quanto a total execração, como em Anjo Negro, 1948, ousada montagem para a época pelo Teatro Popular de Arte. Distante de qualquer modismo, tendência ou movimento, cria um estilo próprio e é hoje considerado um dos maiores dramaturgos brasileiros.

sábado, 22 de agosto de 2015

Dilema - Descortinando Dorothy Parker (poeta)




A alma vive, o dilema da poesia:
ser toda dela, ou dividir-se,
entre ela e o vil metal.
Ser nele acompanhante,
ou nela marginal.
Entre eles, ser amante,
num ménage canibal.

Joakim Antonio



Unfortunate Coincidence



By the time you swear you’re his,
Shivering and sighing,
And he vows his passion is
Infinite, undying -
Lady, make a note of this:
One of you is lying.


Infeliz coincidência

E quando você jurar que é dele,
Bamba, suspirante,
E o homem jurar o amor nele
Infinito e incessante –
Lady, não se descabele:
Dos dois, um é farsante.

Dorothy Parker







Dorothy Parker (Long Branch, Nova Jérsei, 22 de agosto de 1893 — Nova Iorque, 7 de julho de 1967) foi uma escritora, poetisa, dramaturga e crítica estadunidense.

Ela se casou duas vezes, em 1917 e 1933, e adotou o sobrenome do primeiro marido. Dorothy foi educada em boas escolas particulares até abandonar os estudos aos 14 anos. Leitora voraz, cedo decidiu que escrever seria sua profissão. Em 1916 vendeu alguns poemas para a revista Vogue, e em seguida foi contratada: seu primeiro cargo foi escrever legendas para fotos e desenhos.

Em seguida ela se tornou crítica de teatro da revisa Vanity Fair, onde ela conheceu os intelectuais Robert Benchley e Robert Sherwood. Os três seriam o núcleo da lendária Mesa Redonda do Hotel Algonquin, ponto de almoço da inteligentzia nova-iorquina nos anos 1920. Além das críticas teatrais e literárias, Dorothy escreveu contos e algumas peças de teatro. Ela foi uma das pessoas que influenciaram a revista New Yorker, que simbolizou a cultura e a crítica de Nova Iorque durante décadas. Lá ela trabalhou de 1927 a 1933. Sua maior fama se deve ao senso de humor e língua venenosa, sempre encontrando um comentário ferino para fazer. Ela continuou escrevendo para a New Yorker, esporadicamente, até 1955. Sua última peça de teatro, Ladies of the corridor, foi de 1953.

A vida privada de Dorothy foi uma sucessão de casamentos infelizes, casos amorosos fracassados, abortos, tentativas de suicídio, dívidas e alcoolismo. Ela morreu em seu apartamento em Manhattan na companhia de seu poodle, Troy. 

(Fonte: Chambers Biographical Dictionary, 1990) Opiniao & Notícia


Para saber mais:

Português

  • Resumo bibliográfico, incluindo palavras da poeta em Blog Panorama
  • A questão da mulher e a ordem social: o humor em Dorothy Parker por Juliana Rosenthal Knoepfelmacher em Teses  USP (PDF) 

Inglês


Espanõl

  • Dorothy Parker, poeta e escritora estadounidense en Universia

Imagens 



2. Google Search

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Entintado



A tinta não parava de escorrer
por mais que limpasse
ela ressurgia em sua face
a folha a frente absorvia
cada lágrima escura
feita de tristezas nuas
verdades puras
alma escancarada
e todos demais clichês
que o açoitavam
marcando a seiva prensada
tornando a folha branca
sua página virada da história

Linhas antes invisíveis
se faziam ver a todos
não em seus traçados
mas formando e transformando
a face inchada e calada
arranhada pelas mágoas
tornando também seu rosto
a página final
daquele conto perdido
nunca dito
mas sempre escrito
nas marcas visíveis
a qualquer um que o encarasse


Joakim Antonio


Publicado originalmente em, Manufatura - Literatura feita de maneira artesanal.

Imagem: Face V by Therealjustinbailey

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Com a palavra, O poeta - Descortinando Cora Coralina (poeta)

Mulher sertanejalivre, turbulenta, cultivadamente rude...


Cora Coralina, de Goiás

Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina.

Cora Coralina, tão gostoso pronunciar esse nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando música de sereias antigas e de dona Janaína moderna.

Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o Governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada.

Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos:

"Vive dentro de mim/ uma cabocla velha/ de mau olhado,/acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo." "Vive dentro de mim/a lavadeira do rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão." "Vive dentro de mim/a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem-feito." "Vive dentro de mim/a mulher proletária./Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos." "Vive dentro mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha.../tão desprezada /tão murmurada...".

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Por onde passa - Descortinando Haroldo de Campos (poeta)



A poesia
Pede Campos

Há lugar
Há Campos

A poesia
Pede Haroldo


            Campos
Haroldo
            Campos



Joakim Antonio



EX/PLICAÇÃO


não há um 
sentido único
num 
poema 

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim 
en-
tão só fica o
ex
do ponto de 
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída


Haroldo de Campos
"Ex/plicação", A Educação dos Cinco Sentidos
Editora Brasiliense, São Paulo, 1985





Haroldo Eurico Browne de Campos (São Paulo, 19 de agosto de 1929 — São Paulo, 16 de agosto de 2003) foi um poeta e tradutor brasileiro. Haroldo fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros, como latim, inglês, espanhol e francês. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no final da década de 1940, lançando seu primeiro livro em 1949, O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia.

Em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como "Geração de 45". Fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista do grupo, de mesmo título. Nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretista, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando-se suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias".

Haroldo doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antonio Candido, tendo sido professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin.
Haroldo dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. Publicou, ainda, numerosos ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).

Faleceu em São Paulo, tendo publicado, pouco antes, sua transcriação em português da Ilíada, de Homero.

Obras

  • Xadrez de Estrelas (1976)
  • Signância: Quase Céu (1979)
  • Campos, Haroldo de. Galáxias. São Paulo: Editora 34, 1984. 127 p. ISBN 8573263008 (Acompanha CD no qual o poeta Haroldo de Campos grava 16 poemas do livro GALÁXIAS, acompanhado pela cítara de Alberto Marsicano - produzido por Arnaldo Antunes)
  • A Educação dos Cinco Sentidos (1985)
  • Crisantempo (1998)
  • A Máquina do Mundo Repensada (2001)

Prêmios e homenagens

  • Sua biografia foi incluída na Enciclopédia Britânica em 1997.
  • Foi o ganhador do Prémio Octavio Paz de Poesía y Ensayo, no México, em 1999.
  • Nesse mesmo ano, as Universidades de Yale e de Oxford organizaram conferências sobre sua obra em comemoração de seus setenta anos.
  • Foi vencedor do prêmio Jabuti em 1991, 1993, 1994, 1999 e 2002. Wiki

Para saber mais:

Entrevistas: Haroldo de Campos e a transcriação

Vídeos:
  • O poeta e gestor cultural Frederico Barbosa, responsável pelo acervo do poeta, e o músico e compositor Lívio Tragtenberg, parceiro de criação de Haroldo de Campos, falam sobre o poeta em Haroldo de Campos - Jogo de Ideias (2011) (Youtube)
  • "Metrópolis" faz homenagem aos 10 anos sem Haroldo de Campos em TV Cultura (CMAIS+)



Imagens:

1. Capa do livro, A educação dos cinco sentidos - Editora Iluminuras
2. Haroldo de Campos

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Leitura sexy




Ela lia
Eu sentia

Eu de ouvido
Ela tocada

Ela tão linda 
Eu boquiaberto

Eu dedilhava
Ela declamava

Ela convite
Eu chave

Ambos 
Poesia 


Joakim Antonio
 


Série de videos mostra mulheres lendo e atingindo orgasmos

A ideia é do fotógrafo Clayton Cubitt mas rapidamente se espalhou, dando origem a algumas réplicas. Hysterical Literature é uma série de vídeos de mulheres lendo textos, com passagens eróticas ou não, ao mesmo tempo que são estimuladas por um vibrador. Atingindo o clímax, elas mostram “o dualismo entre o corpo e a mente”.

O fotógrafo responsável pela ideia diz que a série também pretendeu mostrar o contraste entre cultura e sexualidade, já que o orgasmo feminino ainda é criminalizado em algumas sociedades e religiões.


Publicado originalmente em, Manufatura - Literatura feita de maneira artesanal.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Silenciador - Palavra Expressa




Silêncio no recinto
Me ressinto de falar
Quando fico mudo
É medo de mudar

O som desligou
E eu nem liguei
O mundo mudou
Ou me mudei

Cordas vocais
Presas num canto
São barco no cais
Não têm encanto

Um pássaro avoa
Sem emitir som
O passado ecoa
Num baixo tom

Dizem que o tempo
Pode curar tudo
Então silencio a dor
Dando um grito mudo


Joakim Antonio


Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


Imagem: Biography of my silence V By Mybittersweetness

domingo, 16 de agosto de 2015

Também poesia - Descortinando Millôr Fernandes (poeta)



As pessoas
o admiram
riem e se
espantam
tanto
que muitas vezes
esquecem
não sabem
nem imaginam
o poeta
que cria
brilha
inventa
sorri
e se
apresenta
dentro
de ti

Joakim Antonio


Poeminha: Última Vontade
Millôr Fernandes


Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossêgo
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre fôlhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa
haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora
Preso à angustia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuvas ocasionais,
Estes sim, imortais
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.



Milton Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, foi um poeta, desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista brasileiro.

Começou a trabalhar ainda jovem na redação da revista O Cruzeiro, iniciando precocemente uma trajetória pela imprensa brasileira que deixaria sua marca nos principais veículos de comunicação do país. Em seus mais de 70 anos de carreira produziu de forma prolífica e diversificada, ganhando fama por suas colunas de humor em publicações como Veja, O Pasquim e Jornal do Brasil, entre várias outras.

Em seus trabalhos costumava valer-se de expedientes como a ironia e a sátira para criticar o poder e as forças dominantes, sendo em consequência confrontado constantemente pela censura. Dono de um estilo considerado singular, era visto como figura desbravadora no panorama cultural brasileiro, como no teatro, onde destacou-se tanto pela autoria quanto pela tradução de um grande número de peças.

Com a saúde fragilizada após sofrer um acidente vascular cerebral no começo de 2011, morreu em março de 2012, aos 88 anos. Wiki


Poesia
  • 1967 – Papaverum Millôr (Prelo. Edição revista e ilustrada publicada pela Nordica em 1974)
  • 1968 – Hai-kais (Senzala)
  • 1984 – Poemas (L&PM)

Para saber mais:


Imagens:

1. Capa do livro de Poesia Papáverum de Millôr Fernandes
2. Millôr Fernandes por Cynthia Brito

sábado, 15 de agosto de 2015

O centenário grapiúna - Descortinando Jorge Amado (escritor)


Óia lá, lá vem o bom baiano, vem andando sem pressa, nos seus, também bons, cem anos; trás lápis e papel na mão, já na cabeça, chapéu panamá e pura inspiração. Sabe de onde ele vem, vem de um grande país, O País do CarnavalCacauSuor e lágrimas, de sincretismo religioso, onde vive o misterioso Jubiabá.

Esse bom baiano é mestre das águas, já navegou pelo Mar morto, guiando Capitães da areia e declamando poesias, apresentando a eles A estrada do mar. Ele sabe de cor o ABC de Castro Alves e também luta, assim como O cavaleiro da esperança, daqui até essas Terras do Sem-Fim, chegando a São Jorge dos Ilhéus e passando pela Bahia de Todos os Santos, que ele conhece como a palma da mão. Apresentando os lutadores da Seara vermelha, buscadores de melhores condições de vida, ganhando o pão diário e buscando O amor do soldado, que não é viver em guerra e sim buscar O mundo da paz, seja aos olhos de todos, ou percorrendo Os subterrâneos da liberdade.

Apreciador da beleza feminina, nunca nos deixou esquecer Gabriela, cravo e canela, menina brejeira e simples, que é leve como a brisa e forte como o furacão. Talvez sabendo que se eternizaria, não tinha medo de falar da morte, em especial, A morte e a morte de Quincas Berro d'Água.

Era amigo de todos, entre eles, os capoeiras do terreiro, Os velhos marinheiros ou o capitão de longo cursoOs pastores da noite e O Compadre de Ogum, talvez até esse último tenha notado primeiro, o que havia entre Dona Flor e Seus Dois Maridos. Também fez vários amigos na Tenda dos milagres, onde, a boca pequena, corria a história de Teresa Batista cansada de guerra.

Grande observador da vida sempre dizia a sua filha, “O mundo só vai prestar, para nele se viver, no dia em que a gente ver casar, O gato Malhado e a andorinha Sinhá. Saindo os dois a voar, o noivo e sua noivinha, Dom Gato e Dona Andorinha.”; já para os adultos, adorava contar a volta e as reviravoltas que causara Tieta do Agreste, inclusive para seus pares da academia, mesmo não gostando de usar o que lá era moda, a Farda, fardão, camisola de dormir, que lá era obrigatória.

Desejava a todos, liberdade de ser, assim como a natureza e, Do recente milagre dos pássaros, tudo sabia o grande homem do litoral, que nunca deixaria de ser O menino grapiúna, que se alegra e ri alto, de histórias divertidas como A bola e o goleiro, que lhe tiravam do universo sombrio da Tocaia grande, fazendo com que espairece-se e não pensasse em nada mais, não se preocupando nem com O sumiço da santa.

Gostava de lembrar-se dos bons tempos, da Navegação de cabotagem, e puxar conversa sobre a cultura árabe, que ele chamava de A descoberta da América pelos turcos, influenciando não só a cultura baiana e brasileira, mas também o mundo, se houvesse tempo, falaria sobre O milagre dos pássaros, histórias da Hora da Guerra, que só ele sabia contar.

No final, nenhuma história acabou, ninguém morreu, alguns choraram, mas todos, sem exceção, sorriram por poderem se deliciar com as histórias do grande, ou melhor, eterno grapiúna; que trazia no nome, um delicioso destino.

Parabéns Amado Jorge e obrigado!

(Texto em comemoração ao centenário de Jorge Amado, em 2012.)



Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A primeira lição - Descortinando Philip Larkin (poeta)



A primeira lição
É este quebra-cabeça:
Eu sou, Tu és, Deus é;
Palavras são cercas.


Joakim Antonio

A primeira coisa 
Que entendi foi esta:
Tempo é o eco de um machado
Dentro da floresta.


Philip Larkin

A primeira coisa - Tradução: Luiz Roberto Guedes.




Philip Arthur Larkin (Coventry, 9 de Agosto de 1922 – 2 de Dezembro de 1985) nasceu em Coventry, Inglaterra.

Um dos mais destacados poetas britânicos modernos, estreou com Night Ship (1945) e publicou, entre outros, The Whitsun Weddings (1965), High Windows (1974) e Aubade (1977).

Após se graduar em língua inglesa e literatura na Universidade de Oxford, em 1943, Larkin virou bibliotecário e passou 30 anos de sua vida cuidando da biblioteca na Universidade de Hull. Philip fazia parte do grupo de poetas ingleses The Movement, juntamente com Elizabeth Jennings, Kingsley Amis e Thom Gunn. Em 1984, declinou de ser nomeado poeta laureado alegando não dispor de tempo para os compromissos decorrentes dessa posição. Morreu de câncer, aos 63 anos, exatamente como seu pai, que morreu da mesma causa, com a mesma idade, e que também foi bibliotecário.

Era certamente um dos poetas prediletos de John Lennon: curiosamente, as canções Imagine e Working Class Hero parecem ressoar temas de Larkin.


Para saber mais:

Português 



    English



    Imagens originais:

    quinta-feira, 13 de agosto de 2015

    Reunião de família - Descortinando Sara Teasdale (poeta)



    E todos vieram
    não como esperado
    pois alguns
    não queria mais ver

    Chegaram tagarelas
    em ordem cronológica
    contando segredos
    para todos verem

    Falavam aos olhos
    olhando coração
    apontando seu dedos
    todos para mim

    Um grande cordeiro
    na sala de estar
    branco e negro
    de impaciência aflita

    Reunião ingrata e precisa
    de palavras indelicadas
    mas eu sempre soube
    que lembranças agem assim

    Joakim Antonio


    A bola de cristal

    Eu vou reunir-me a meu eu novamente,
    Pegar meus pedaços dispersos e torná-los um.
    Vou fundi-los numa bola de cristal brilhante
    Onde verei a lua e o sol revezando-se.

    Devo sentar como a sibila, dedicando horas a fio.
    Observando o futuro chegar e o presente partir -
    E imagens mutáveis de pessoas apressadas
    Em seus pequenos egos pra lá e pra cá.

    The Crystal Gazer by Sara Teasdale 



    Sara Teasdale (8 de Agosto de 1884 - 29 de Janeiro de 1933), foi uma poetisa norte-americana ganhadora do Pulitzer Prize.

    Nascida em família privilegiada, foi educada em várias escolas particulares, locais onde começou a escrever poesia. Fundou com amigos o jornal The Potter's Wheel, que contribuiu para a publicação e divulgação de seus primeiros poemas. Apesar da fama e prestígio crescentes obtidas com a divulgação de sua obra, Sara sentia-se infeliz e solitária. Sua obra trazia como temas recorrentes os sentimentos de desilusão e ânsia por um amor que não vem. Em 1918 foi homenageda com o Pulitzer Prize por sua coletânea Love Songs de 1917. Após anos de depressão solitária e desgaste físico provocado por uma pneumonia, se matou com overdose de barbitúricos aos 48 anos.


    Em Português:

    Você encontra poucos poemas traduzidos na web, aqui uma lista de locais:

    RecantodasletrasUmbelarteCantodaalmaGrabois.org e Da condição humana


    Em inglês:

    Ebooks in  http://www.gutenberg.org/ebooks/author/223


    Imagens originais:

    1. Outdated memories by ciasteckoowa
    2. Sara Teasdale by xabigal-eyes

    quarta-feira, 12 de agosto de 2015

    Quadro



    Às vezes a pessoa que parece ser a mais dura, chora apenas olhando um quadro. Porque ela não precisava de palavras na sua mente, e sim no seu coração.

    Joakim Antonio

    Imagem: The blue tear by Mobiusco photo

    terça-feira, 11 de agosto de 2015

    Insônia - Palavra Expressa




    Algo lhe tira o sono
    Dentro do próprio sonho
    Acorda suas madrugadas
    E a consome

    Tateando na penumbra
    Pega o livro proibido
    E o lê até o fim
    De novo, de novo e de novo

    Algo lhe dá corda
    Dentro da própria história
    Feita de páginas quentes
    Sem lado certo, verso ou frente

    Sente um gosto bom
    Descendo garganta abaixo
    Aguardente de desejos
    Destilada na mente

    Então caminha até a mesa
    Pega folhas e caneta
    E num impulso
    Passa a língua nos lábios

    O gosto continua alí
    Seus olhos se iluminam
    Cenas povoam o ar
    Não há mais como escapar

    Decidiu ceder aos instintos
    E novamente escreveu
    E com desejos e sonhos em dia
    Finalmente dormiu em paz

    Joakim Antonio


    Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


    Imagem: The cure for insomnia by Kit7en

    segunda-feira, 10 de agosto de 2015

    Nada





    Nada, é poesia!

    Joakim Antonio





    Imagem: Splash by fly10

    domingo, 9 de agosto de 2015

    Protegido - Dia dos Pais


    Sonhei que era um adulto bem sucedido, ao acordar lia o jornal, consultava o tempo, arrumava as roupas para dia, tarde ou noite, dependia da volta e do temperamento. Ao abrir o armário roupas de frio e calor, capa de chuva, guarda chuva, guarda sol, linha de pesca e anzol, blusas, botas, luva, cachecol, lenços, meias, gravatas de seda, terno de linho, camisas, camisetas. Tudo bem passado e separados, por cor, estação, novas, velhas e até as que iam para doação.

    Ligava o rádio com o som bem alto, para poder escutar sobre o maldito trânsito e ia para o chuveiro, banho em cinco minutos, dez se fizesse a barba, para não gastar muita água, antes de entrar ligava a cafeteira, previamente preparada na noite anterior, ao vestir a roupa tomando o café fresquinho, ligava a TV para ouvir se não havia nenhuma greve, rebelião, assalto, sequestro ou algum tipo novo de violência gratuita, precisava estar preparado, pois a vida não é fácil.

    Durante o dia ficava de olho nas cotações, bolsas de valores, câmbio, fundos, índices econômicos, tinha que ficar atento, podia perder tudo a qualquer momento, coração acelerado, ganhava, perdia, mas no fim disso tudo o dinheiro crescia. No almoço comia um lanche, senão a dor de estômago me matava, pensava em procurar um médico nessa hora, me sentia frio, suava, mas sempre passava, depois eu irei, eu pensava.

    Corria para o escritório, debaixo de um sol que torrava, encontrava o elevador cheio e subia pelas escadas, retirava a gravata no caminho, colarinho todo molhado, entrava porta adentro e me sentia no paraíso, ar condicionado fresquinho, água gaseificada e gelo a vontade, tudo do jeito que eu sonhava, menos os espirros mais tarde.

    Telefone começava a tocar, e-mail chegando, confirmava compromissos, remarcava imprevistos, atendia celular, escrevia no Twitter, Facebook, o Whatsapp sempre aberto, conferência no Skype, pensando no chegar em casa para continuar minha Pós-graduação online.

    Dentro do meu escritório minúsculo, não me sentia sozinho, contava com milhões de amigos na frente do meu PC. Secretária para quê, eu pensava, era mais uma despesa que economizava. Nunca usei office-boy, nem mesmo ia ao banco, contas no débito automático, compras entregues na portaria, frutas sempre fresquinhas que o mercado mesmo escolhia.

    Mas hoje me senti estranho na hora de sair, estômago doeu, mas não tinha fome, pescoço endureceu, braço adormecendo, o peito doeu de um jeito que me fez gritar de imediato, mas o som não saiu, a impressão é de que a garganta secou e a língua dobrou de tamanho. Nunca desejei tanto alguém junto de mim, seria derrame ou infarto, não interessava, só me arrependi de estar sozinho no meu fim.

    De olhos fechados ouvi a porta abrindo, senti o calor da luz acesa nas pálpebras, senti a vibração dos passos de alguém aproximando-se, até que uma voz disse firme e convicta: "acorda e levanta".  Abri os olhos rapidamente, todo suado, ofegante e ao olhar para cima vi um gigante, forte, esbelto, todo de branco, de braços abertos, me estendendo a mão e logo após pegando-me no colo, abraçando de um jeito tão terno, que gostaria que o abraço fosse eterno.

    Ele me disse, agora está tudo bem, calma, abracei-o mais forte, as lágrimas rolaram, tudo bem?, balancei a cabeça que sim, o que lhe afligia acabou, tudo foi apenas um sonho com final ruim, minhas lágrimas pararam e senti sua mão enxugando e acariciando meu rosto, você sempre será meu menino e quero que me prometa manter para sempre seu coração de criança, concordei balançando a cabeça, ele me deu um beijo e disse, agora durma em paz.

    Foi saindo de mansinho e antes que ele acabasse de fechar a porta eu disse bem alto, PAI, ele me fitou com seus olhos brilhantes, um sorriso do tamanho do universo e com aquela sabedoria que só os pais têm disse, eu já sei filho, fechando a porta devagarinho:  "Eu também te amo"!


    Joakim Antonio


    Parabéns a todos os pais e pessoas que fazem, ou evocam o papel de pai. Todos os dias você merecem ouvir, "Eu te amo!". 

    sábado, 8 de agosto de 2015

    Irmãos - Povo da floresta



    Todos que ouviam as histórias do povo do lobo, estranhavam a lenda de uma menina de outra cor, que foi acolhida de imediato, há muitas luas atrás, muito antes do chamado primeiro contato com os selvagens da cidade. E com ele não foi diferente. 

    Mestre, como seu povo aceitou tão facilmente, uma menina como irmã, mesmo com outra cor de pele?

    Não sei o porquê desse estranhamento, se é tão óbvia a resposta.

    Não entendo.

    Se convivíamos com irmãos lobos, de vários portes e cores. É claro que haveria de existir, pelo mundo e pelas estrelas, irmãos nossos de cor e forma diferentes. A única coisa que não sabíamos é quando iríamos nos encontrar, para aprender, um com o outro.

    Joakim Antonio


    Imagem: Eyes Unclouded by Yuume

    sexta-feira, 7 de agosto de 2015

    Povo do lobo - Particularidades



    O povo do lobo trazia consigo misteriosas particularidades. Almas livres, o viam como lobo e quando desprovido dos pelos, o viam como um menino. Mas a mais notada por todos. É que desprovido dos falsos medos, diziam ser realmente um homem.

    Joakim Antonio 


    Imagem: Wolf by Owlivia

    quinta-feira, 6 de agosto de 2015

    Povo do lobo - Temidos



    Engraçado, o povo do lobo sempre me recebeu como um irmão, mas eram temidos por todos. Ao conversar com meu tutor ele me disse o porquê:

    "Somos conhecidos como assassinos matadores de lobos, para roubarmos seus espíritos. Mas nunca matamos um lobo por esporte, usamos sim, a pele dos antigos que morrem em nosso quintal, ou quando preciso, de algum desses irmãos que precisavam parar de sofrer, afligidos por outro grande mal.

    Já nossos irmãos civilizados, destroem-se entre si, por cobiça, inveja, pelo somente ter. São cascas vazias de amor aos outros irmãos da natureza. Tementes ao seu deus pessoal, o qual vira demônio ao menor sinal de, parecer, não os obedecerem.

    Somos temidos, justamente por não temer ser uno com a natureza e também por saber, que por debaixo de nossas peles coloridas, somos todos da mesma cor. Brancas caveiras, que sempre irão nos encarar e lembrar, espero por você.

    O povo do lobo não teme a morte, mas também não espera desprevenido, nós vivemos nosso melhor, dia a dia."


    Joakim Antonio


    Imagem: Wolf by Jouey

    quarta-feira, 5 de agosto de 2015

    Povo do lobo - Sabedoria





    O povo do lobo era muito procurado, devido a sua sabedoria. 
    E muitos iam até eles, para saber o porquê de suas orações 
    não serem atendidas. 

    E eles sempre respondiam: 


    "Deus não é espera!" 


    Joakim Antonio 



    Imagem: Power Of The Wolf by Baioretto-Majo

    terça-feira, 4 de agosto de 2015

    Reencontro



    Hoje lembrou duma conversa antiga.

    - Eu tenho medo.
    - Todos temos.
    - Não quero me machucar no sonho.
    - Faz parte da caminhada, você terá que acreditar no novo caminho.
    - Pai, eu não quero me perder.
    - Por isso esse sonho, ele é um guia.
    - Mas parece tão real, a ponto de se materializar.
    - Sonhos são assim e um dia filho, quando você deixar ele chegar bem perto, você saberá do porquê dele aparecer...

    Sentiu um calor subir pelos pés e tomar conta do corpo, abriu os olhos e viu o sonho entrar porta adentro. Dessa vez não teve medo e o seguiu.

    Ao chegar no seu destino, se surpreendeu com a acolhida. Trocou de roupa, agradeceu a proteção que sempre teve, mesmo sem saber, e o reverenciou colocando uma mão no chão, bradando seu grito de guerra e dizendo, "Obrigado irmão, por me guiar de volta para a minha família.".

    Naquele instante, os dois dançaram.

    Joakim Antonio


    Imagem: The dance of wolf wallpaper

    domingo, 2 de agosto de 2015

    Como todos - Palavra Expressa



    Era igual aos outros
    fazia rir a todos
    entretinha-os


    Realmente tinha o dom
    falava pouquíssimo
    mas sorria


    Verdadeiro acrobata nato
    quer parecesse ou não idiota
    dava cambalhotas

    Também era meio mágico
    em meio a toda tristeza
    fazia surgir alegrias

    Era como todos
    Palhaço
    Com o mundo ruindo
    Sorria

    Joakim Antonio


    Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


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