terça-feira, 26 de julho de 2016

Criança pererê - Descortinando Cassiano Ricardo (poeta)





Criança pererê
vive a pular
um pé na oca
outro na cidade
hora verde
hora amarela
resquícios culturais
de antigas verdades
resquícios modernos
de civilidade

Criança pererê
quando dá
pula e sobe
no pé que quiser 
em casa touca
na rua boné
no quintal
vestes poucas
na rua
da cabeça aos pés

Criança pererê
a brincar
de rei do mundo
perfeitamente
conjugado
hipocritamente
correto
puramente ingênuo
sem saber
que realmente é rei

Joakim Antonio


Poética

1
Que é a Poesia?

Uma ilha
Cercada
De palavras
Por todos
Os lados.

2

Que é o Poeta?

Um homem
Que trabalha o poema
Com o suor do seu rosto.
Um homem
Que tem fome
Como qualquer outro
Homem. 

CASSIANO RICARDO





Quarto ocupante da Cadeira 31, eleito em 9 de setembro de 1937, na sucessão de Paulo Setúbal e recebido pelo Acadêmico Guilherme de Almeida em 28 de dezembro de 1937. Recebeu os Acadêmicos Fernando de Azevedo e Menotti del Picchia.

Cassiano Ricardo (C. R. Leite), jornalista, poeta e ensaísta, nasceu em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974.

domingo, 24 de julho de 2016

Casa da colina - Descortinando Guilherme de Almeida (poeta)



Na casa da colina
morava um príncipe
no peito do poeta
uma pátria

Na bandeira hasteada
trincheiras de luto
armas em brasa
coração rubro

Na alma revolucionária
há ocidente e oriente
prosas de direito
haikais mil

Na casa da colina
traduz-se um poeta
nas suas linhas
o Brasil

Joakim Antonio



"A casa na colina é clara e nova. A estrada sobe, para, olha um instante e desce".  Guilherme de Almeida


Terceiro ocupante da Cadeira 15, eleito em 6 de março de 1930, na sucessão de Amadeu Amaral e recebido pelo Acadêmico Olegário Mariano em 21 de junho de 1930. Recebeu o Acadêmico Cassiano Ricardo.

Guilherme de Almeida (G. de Andrade e A.), poeta e ensaísta, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Distraído - Descortinando Hart Crane (poeta)



Distrações são vivas
nos levam pelo braço
passeando entre espaços
dentro do próprio ser

Distrações são traiçoeiras
aproveitam nosso cansaço
e sem fazer estardalhaços
nos deixam a sua mercê

Distrações são vazios
de crescimento rápido
criando mais espaços
a nos conter

Distrações são borrachas
apagando fino traço
nos tornando fracos
trazendo o esquecer

Joakim Antonio


Esquecimento é como uma canção
Que, sem ritmo e medida, perde-se.
Esquecimento é um pássaro de asas harmonizadas,
Abertas e imóveis —
Um pássaro que plana ao vento, incansavelmente.

Esquecimento é chuva noturna,
Ou uma casa velha na floresta — ou uma criança.
O esquecimento é branco — branco de árvore ressecada.
E pode atacar a Sibila¹ em profecia,
Ou enterrar os deuses.

Eu posso lembrar muitos esquecimentos.

Hart Crane, ESQUECIMENTO 

Hart Crane (21 de julho de 1899 – 27 de abril de 1932) foi um poeta modernista dos Estados Unidos.
Começou a escrever poesia moderna quando foi viver para Nova Iorque, influenciado por Pound e Eliot, escrevendo ainda em formas tradicionais e arcaicas. Em 1926, quando publicou sua primeira coleção de poemas ainda sofria influência simbolista.

Após a publicação de Bridge, em 1930, livro cheio de otimismo em relação aos EUA, Hart Crane entrou numa profunda depressão, embora continuasse a produzir em estilo requintado.
Depois de obter uma bolsa de estudos no México e de se mudar para lá por algum tempo, na viagem de regresso, Crane suicidou-se atirando-se ao mar.

Embora considerado por muitos de difícil compreensão, e tendo falecido jovem, tornou-se num dos poetas mais influentes da sua geração, sendo citado, muito posteriormente, em Howl e outros poemas, de Allen Ginsberg. WIKI



Par saber mais:

Português


English



1. Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana. São descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo. WIKI

Imagem: Hart Crane by David Alfaro Siqueiros

terça-feira, 19 de julho de 2016

Cobrança - Descortinando Vladimir Maiakóvski (poeta)



A poesia me revela
justamente na falta
juntamente na falha
de grandes poetas
com bocas abertas
e palavras fechadas
em volta apenas deles
envoltos em cacoetes
falando apenas de si
não escrevendo
o simples
pois entraram
in complexus
menos povo
mais incesto
entre intelectuais
cheios de
mimimis

A poesia me encara
divinamente envidraçada
devidamente carregada
irradiando como o Sol
elétrons e prótons
para terra sem lei
na rede de nós
entre_lançados
diariamente
graças
a Deus e a Teus
divinos dons ocultos
em bites e bytes
perguntando onde andam
os bardos geeks
pois só vê o óbvio
de antiquíssimos versos
dos papiros do Egito

A poesia me acusa
constantemente de acídia
constatadamente verdadeira
por deixar de chocar
parindo apenas posts
com muito, amor, paz e doce
não mudando uma vírgula sequer
desse mundo iPadrão
onde Maiakovski
já saberia mil anos antes
que a revolução
não será televisionada
porque há tempos
já está sendo
devidamente twitada
com requintes de crueldade
por publicar sem pena
mais do mesmo

Joakim Antonio


"Traduzir poemas é tarefa difícil, especialmente os meus.
........................................
Uma outra razão da dificuldade da tradução de meus versos vem de que introduzo nos versos a linguagem quotidiana, falada...
Tais versos só são compreensíveis e só têm graça se se sente o sistema geral da língua, e são quase intraduzíveis, como jogos de palavras." Vladimir Maiakóvski



domingo, 17 de julho de 2016

Tocando



Às vezes, ao tocar outro, sente-se o barro. Dispensamos a mão e tocamos o pulso, como se tocássemos o coração. Sentimos a fogueira da alma e então, ouvimos a canção do outro. A ode que o Oleiro recitou ao nos dar forma, colocando um abismo em cada um, preenchido por um salto com amor. E de repente, no caos da própria voz, cantando desejos, você lembra de um olhar e sorri, ao perceber que o momento acontecera antes mesmo do que pensou.

E em algum lugar, olhando os dois, o Oleiro sorri também.


Joakim Antonio




Imagem: Final-Touch by ZaGHaMi

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Agradecimento eterno



Juntou seu dinheirinho, contando centavos pela vida afora e finalmente comprou a casa onde crescera. Mesmo a contragosto dos filhos, pois pagou bem mais do que valia. Mudou-se e fez um almoço de boas vindas para a família. Fez tudo como era no seu tempo de criança. A comida exalava um cheiro que nunca sentiram, evidenciando sua gostosura e deixando todos com água na boca, fazendo crianças e adultos ficarem em volta, nos famosos beliscos.

Ao servir a refeição, todos comeram até se fartar, alguns lembrando que há tempos não comiam certos alimentos e quitutes, mas tudo era bom demais. As mulheres, todas em volta dele, queriam saber as receitas do grande avô e ele. apenas ria e dizia ser segredo de família, mas no fim do dia, saberiam de onde veio.

Na hora da sobremesa, pediu que todos fossem para outra mesa, no quintal dos fundos. E assim o fizeram. Filhos em volta da mesa, netos pelo chão, noras servindo a todos em taças antigas, de extrato de tomate cica. Todos fizeram questão que ele comesse o primeiro pedaço do manjar, daqueles simples e com ameixas em cima.

Ele sentou e colocou um babador, meio puído e com galinhas e patos desenhados à mão, olhou para todos, com um brilho que nunca viram antes e sem medo dos netos o acharem mais louco, falou em voz alta, descendo lágrimas, mas com um sorriso no rosto.

Obrigado Mãe!


Joakim Antonio


Imagem: Smile by Dailywish

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Que parte



que parte
que fica
que soma
que grita
que muda
que brilha
que vale
que cresce
que planta
que sua
que inventa
que faz
que para
que vê
que sabe
que passa
que retorna
que revolve
que tenta
que tenta
que tenta
que parte
que fica
que está

Anima Fragile by Calawa

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Cren-dós-padre - Descortinando Cornélio Pires (escritor)



Meia noite na porta do cemitério.

Cren-dós-padre de atravessá o cemitério agora Zé.
Ocê que é besta sô, vamu logo Toin!
Mais Zé, hoje é dia de finadu, eles tão tudo sorto aí dentro.
Ocê carece de sê mais home Toin, além dos mais, eu tenho o corpo fechado.
Avai, tem mesmo?
Craro ué, tá vendo argum buraco aqui, só da cara, osotro que tem os pano tapa.
Deixa de sê besta homi, ainda fica zuando, agora que num vô mesmo,
Então fica aí, quando ocê chegá eu já to dormindo é tempo.
Vai cum Deuso e Nosso Sinhô Jesus Cristo, inté!
Tá, tá, tá, tá, inté. Diz Zé, sem nem olhar apara trás.

Já no meio do cemitério

Esse Toin parece criança, acreditando em sombração.
Comé quié amigo?
Ô, qui bão encontrá mais arguém aqui, o povo morre di medo, vê si pode.
Pois é, não sei porquê.
São tudo caipira sô, isso é culpa dos mai véi, botando caraminhola na cabeça do povo.
Será amigo? Eu sou bem mais velho que você.
Ué e não tem medo di passá pelo cimitério essas hora.
Quando eu era vivo tinha!
Cren-dós-padre, mi acuda Nosso Sinhô!!!!

Zé deu no pé e nunca mais duvidou de nada nessa vida.

Se é verdade eu num sei, mas foi assim que minha vó contou.

Joakim Antonio


“Meio escritor, meio ator, meio animador; generoso, combativo, empreendedor, simpático – a sua maior obra foi a ação nos palcos nas palestras na literatura falada que perde bastante quando é lida. Como os oradores, como certo tipo de poetas, como os repentistas e os velhos glosadores de mote, a dele foi uma literatura de ação e comunhão direta, eletrizante, com o público”.  Dantas, M., Cornélio Pires Criação e Riso - ed. Duas Cidades. Prefácio de Antonio Candido¹





Cornélio Pires (Tietê, 13 de julho de 1884 — São Paulo, 17 de fevereiro de 1958) foi um jornalista, escritor, folclorista e espírita brasileiro.

Foi um importante etnógrafo da cultura caipira e do dialeto caipira.


Iniciou a sua carreira viajando pelas cidades do interior do estado de São Paulo e outros, como humorista caipira.

Em 1910, Cornélio Pires, apresentou no Colégio Mackenzie hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros, e duplas de cantadores do interior. O Colégio Mackenzie foi fundado e sempre mantido pela Igreja Presbiteriana, à qual Cornélio Pires pertencia.
Ambicionando cursar a Faculdade de Farmácia, deslocou-se de Tietê para a cidade de São Paulo, a fim de prestar concurso de admissão. Não tendo obtido sucesso em seu intento, conseguiu empregar-se na redação do jornal O Comércio de São Paulo. Posteriormente trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, onde desempenhou a função de revisor. A partir de 1914, passou a trabalhar no periódico O Pirralho.

Foi autor de mais de vinte livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e expressões usadas pelos caipiras. No livro "Conversas ao Pé do Fogo", Cornélio Pires faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras e, ainda no mesmo livro, ele publica o seu "Dicionário do Caipira". Na obra "Sambas e Cateretês" recolhe inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido registradas nesse livro. A importância de sua pesquisa começa a ser reconhecida nos meios acadêmicos no uso e nas citações que de sua obra faz Antonio Candido, professor na Universidade de São Paulo, o nosso maior estudioso da sociedade e da cultura caipira, especialmente no livro Os Parceiros do Rio Bonito.

Foi o primeiro a conseguir que a indústria fonográfica brasileira lançasse, em 1928, em discos de 78 Rpm, a música caipira. Segundo José de Souza Martins, Cornélio Pires foi o criador da música sertaneja, mediante a adaptação da música caipira ao formato fonográfico e à natureza do espetáculo circense, já que a música caipira é originalmente música litúrgica do catolicismo popular, presente nas folias do Divino, no cateretê e na catira (dança ritual indígena, durante muito tempo vedada às mulheres, catolicizada no século XVI pelos padres jesuítas), no cururu (dança indígena que os missionários transformaram na dança de Santa Cruz, ainda hoje dançada no terreiro da igreja da Aldeia de Carapicuíba, em São Paulo, por descendentes dos antigos índios aldeados, nos primeiros dias de maio, na Festa da Santa Cruz, a mais caipira das festas rurais de São Paulo).

A criação de Cornélio Pires permitiu à nascente música caipira comercial, que chegou aos discos 78rpm libertar-se da antiga música caipira original, ganhar vida própria e diversificar seu estilo. Atualmente a música caipira é chamada de música raiz para se diferenciar da música sertaneja. A música caipira dos discos 78rpm nasce, no final da década de 1920, como o último episódio de afirmação de uma identidade paulista após a abolição da escravatura, em 1888, que teve seu primeiro grande episódio na pintura, especialmente a do Ituano Almeida Júnior, expressa em obras como "Caipira picando fumo", "Amolação interrompida", dentre outras. A ironia e a crítica social da música sertaneja originalmente proposta por Cornélio Pires, situa-se na formação do nosso pensamento conservador, que se difundiu como crítica da modernidade urbana. O melhor exemplo disso é a "Moda do bonde camarão", uma das primeiras músicas sertanejas e uma ferina ironia sobre o mundo moderno.

Após encerrar a sua carreira jornalística, Cornélio Pires organizou o "Teatro Ambulante Cornélio Pires", viajando com o mesmo de cidade em cidade, aplaudido por onde passava.

Cornélio Pires é primo dos escritores Elsie Lessa, Orígenes Lessa, Ivan Lessa, Juliana Foster e Sergio Pinheiro Lopes. WIKI

1. Retirado do artigo AS AVENTURAS DE CORNÉLIO PIRES de Arlete Fonseca de Andrade em PUCSP

Para saber mais:

  • O Paratodos colocou o pé na estrada e foi até Tietê, no interior de São Paulo, conhecer o trabalho de um pesquisador que dedicou boa parte de sua vida à cultura caipira: o jornalista, escritor e folclorista Cornélio Pires em  Youtube.com 
  • Cornélio Pires, uma canturia e um causo divertido, num curto vídeo em YouTube.com  




Imagem: Hi-Speed-Quadrilha by Roobens

terça-feira, 12 de julho de 2016

Renascendo - Descortinando Pablo Neruda (poeta)



"Sua maciez chegava, voando por sobre o tempo, sobre o mar..." 
(Quem Morre - Pablo Neruda)

Pequena Morte

Na primeira vez, acordei primeiro e fiquei olhando ela dormir, seu peito subia e descia calmamente, compassadamente como um relógio preciso, já era dia e eu amei estar ali. Continuávamos abraçados, encaixados, não era mais virtual e continuávamos conectados. Admirava seu semblante calmo, amável, havia um leve sorriso mesmo estando dormindo. Deslizei as costas da mão pelo seu rosto, descendo pelo pescoço, por sua pele cor de bronze e seu cabelo agora selvagem, depois da guerra travada ali naquele campo de batalha. Como agora, não tinha o mínimo de sono, queria guerrear mais, mas também adorava ver ela em paz. Ainda mais quando a paz era dupla, pois nessa luta ninguém sai perdendo apesar de acabarem os dois morrendo. Uma pequena morte é verdade, mas que sempre é buscada, pois com ela o corpo para no tempo e apenas por um momento, as almas se fundem, voam e dançam para retornarem completas, repletas um do outro e de si mesmos. E todo dia eu quero morrer de novo.

Joakim Antonio 

"Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como é a natureza." Pablo Neruda 


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Imbróglio - Descortinando Luis de Góngora (poeta)





Apenas mais um simples sonetinho
Feito de uma maneira assimétrica
Desrespeitando os senhores da métrica
Não muito, mas apenas um pouquinho

Feito com a mesma doçura e carinho
Passando longe da mais pura estética
Sem nenhuma bela forma geométrica
Mas rimando assim, aquele tantinho

Fiz um sonetinho quase gongórico¹
contado nos dedos e de cabeça
aparentemente, um grande imbróglio

De quem não entende nada de letras
nem de dório, nem jônio, só simplórios
sem diplomas, mas com folha e caneta

Joakim Antonio

1. Gongórico: 
Que pertence ou se refere a Luis de Góngora y Argote (1561-1627, poeta espanhol). 

Que é apurado, rebuscado, requintado, trabalhado.





 



Ora que a competir com teu cabelo
ouro brunhido ao sol reluz em vão,
e com desprezo, no relvoso chão,
vê tua branca fronte o lírio belo;

ora que ao lábio teu, para colhê-lo,
se olha mais do que ao cravo temporão,
e ora que triunfa com desdém loução
teu colo de cristal, que luz com zelo;

colo, cabelo, fronte, lábio ardente
goza, enquanto o que foi na hora dourada
ouro, lírio, cristal, cravo luzente

não só em prata ou víola cortada
se torna, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Mientras por competir con tu cabello
GÓNGORA, Luis de Góngora.
Fábula de Polifemo e Galatéia e outros poemas.
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (organização e tradução).
São Paulo: Hedra, 2008.


Luis de Góngora y Argote (Córdova, 11 de julho de 1561 — Córdova, 23 de maio de 1627) foi um religioso, poeta e dramaturgo castelhano, um dos expoentes da literatura barroca do Siglo de Oro.

domingo, 10 de julho de 2016

Sofrer por saber - Descortinando Salvador Espriu (poeta)



Muitas vezes invejava
Quem apenas era
Sem olhar

Bastidor do sorriso
Tom de voz
Gesto secular

Tinham olhos tranquilos
Obedeciam às leis
Sabiam ficar

Recolhidos no toque
Se sentindo seguros
No lar-doce-lar

Quem dera pudesse
Obter o saber
Sem queimar

Não veria tristeza
E sempre estaria
Em paz


Joakim Antonio





O sonho de liberdade tornou-se a cadeia
que me liga já para sempre ao meu canto doloroso.
Compadeci-me dos homens, da fria tristeza
do estranho tempo dos homens enterrados na morte,
e lhes trazia cristal e ardor de palavras,
luminoso nome que dizem os velhos lábios do fogo.
Águia, vinda do nascimento da luz,
de onde vês como é concebida a brancura da neve,
busca, para a luz, a mais secreta vida:
pelo sol, palpitante, toda a nua vida.
Abrirás com o bico eternamente caminhos
ao sangue que ofereço como a prova deste dom.


Prometeu, tradução de Ronald Polito.
2002: Quatorze, de Salvador Espriu.
Curitiba: Travessa dos Editores.


Salvador Espriu i Castelló (10 de julho de 1913 - 22 de fevereiro de 1985) é um poeta, dramaturgo e romancista catalão.

O crítico espanhol Josep Maria Castellet destaca a capacidade de Espriu para assimilar a herança mítica da humanidade, integrando num mesmo universo literário o Livro dos Mortos do Antigo Egipto, a Bíblia, a mística judaica e a Mitologia Grega.

Foi um dos grandes renovadores da prosa catalã em conjunto com Josep Pla e Josep Maria de Sagarra. Da sua extensa obra a mais bem conhecida é A pele do touro (título original: La pell de brau) em que desenvolve a sua visão da problemática histórica, social e cultural de Espanha.

A sua poesia do pós-guerra é marcadamente hermética e simbólica, assinalando uma profunda tristeza pelo mundo que o rodeia e pela recordação dos horrores da guerra. WIKI



Para saber mais:


  • Biografia de Salvador Espriu na Wikipédia
  • Três poesias de Salvador Espriu em Poetanarquista
  • Presença(s)de Salvador Espriu no sistema cultural galeguista (2003) - Maria Felisa Rodriguez Prado - Grupo GALABRA - Universidade de Santiago de Compostela em PDF




Imagem: Prometheus by Misojace (Statue of Prometheus at the Altes national Gallery in Berlin.)

sábado, 9 de julho de 2016

Dilema - Descortinando Dorothy Parker (poeta)




A alma vive, o dilema da poesia:
ser toda dela, ou dividir-se,
entre ela e o vil metal.
Ser nele acompanhante,
ou nela marginal.
Entre eles, ser amante,
num ménage canibal.

Joakim Antonio


Unfortunate Coincidence



By the time you swear you’re his,

Shivering and sighing,
And he vows his passion is
Infinite, undying -
Lady, make a note of this:
One of you is lying.


Infeliz coincidência

E quando você jurar que é dele,
Bamba, suspirante,
E o homem jurar o amor nele
Infinito e incessante –
Lady, não se descabele:
Dos dois, um é farsante.

Dorothy Parker







Dorothy Parker (Long Branch, Nova Jérsei, 22 de agosto de 1893 — Nova Iorque, 7 de julho de 1967) foi uma escritora, poetisa, dramaturga e crítica estadunidense.

Ela se casou duas vezes, em 1917 e 1933, e adotou o sobrenome do primeiro marido. Dorothy foi educada em boas escolas particulares até abandonar os estudos aos 14 anos. Leitora voraz, cedo decidiu que escrever seria sua profissão. Em 1916 vendeu alguns poemas para a revista Vogue, e em seguida foi contratada: seu primeiro cargo foi escrever legendas para fotos e desenhos.

Em seguida ela se tornou crítica de teatro da revisa Vanity Fair, onde ela conheceu os intelectuais Robert Benchley e Robert Sherwood. Os três seriam o núcleo da lendária Mesa Redonda do Hotel Algonquin, ponto de almoço da inteligentzia nova-iorquina nos anos 1920. Além das críticas teatrais e literárias, Dorothy escreveu contos e algumas peças de teatro. Ela foi uma das pessoas que influenciaram a revista New Yorker, que simbolizou a cultura e a crítica de Nova Iorque durante décadas. Lá ela trabalhou de 1927 a 1933. Sua maior fama se deve ao senso de humor e língua venenosa, sempre encontrando um comentário ferino para fazer. Ela continuou escrevendo para a New Yorker, esporadicamente, até 1955. Sua última peça de teatro, Ladies of the corridor, foi de 1953.

A vida privada de Dorothy foi uma sucessão de casamentos infelizes, casos amorosos fracassados, abortos, tentativas de suicídio, dívidas e alcoolismo. Ela morreu em seu apartamento em Manhattan na companhia de seu poodle, Troy. 

(Fonte: Chambers Biographical Dictionary, 1990) Opiniao & Notícia


Para saber mais:

Português

  • Resumo bibliográfico, incluindo palavras da poeta em Blog Panorama
  • A questão da mulher e a ordem social: o humor em Dorothy Parker por Juliana Rosenthal Knoepfelmacher em Teses  USP (PDF) 

Inglês


Espanõl

  • Dorothy Parker, poeta e escritora estadounidense en Universia

Imagens 



2. Google Search

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Amigos de La Fontaine - Descortinando La Fontaine (poeta)



Tá de barriga cheia né, safado?
Um queijinho cai bem de vez em quando né, hipócrita?
Euuu?
Não, eu mané. Você mesmo, que gosta de roubar coisas dos filhotes inocentes.
Ha, ha , ha, pelo menos eu não roubo comida de corvo.
Eu não roubei nada, caiu e peguei, tá bem.
Tá nervosa, santa?
Ai meu Santo La Fontaine, você fez de novo.
Pois é, não foi?
Queria que todos soubessem o quão sacana você é, e eu, a pobre raposa inocente, sempre caio nas suas provocações.
Vai reclamar com seu pai, o "Santo".
Sua sorte é que eu não ligo para essa parte, o importante é que ao encenar, acabamos ensinando.
É mesmo, finalmente você tem razão.
Ah, não enche meu saco e quer saber de uma coisa, vamos dormir.
Para quê?
Bom, pelo menos eu não me faço de burro!
Burro é em outra história, ha, ha, ha, ha, ha.
Ai meu La Fontaine, pena que você não pode mais mudar a história, eu ia pedir para mudar de papel.
Tá bom, ia ser, a raposa desafinada, ha, ha, ha!
Tsc, tsc, tsc, cala essa matraca e deita aí.
Tá bom, rabugenta, vamos dormir.
Vamos aproveitar, daqui a pouco alguém abre um livro por aí e só poderemos descansar quando acabar a história.
Minha linda história, você quer dizer.
Ai meu...
Tá, tá, tá, não fala nada já to deitando, sua chata. Zzzzzz.... zzzz...
Epa! Calma aí seu corvo mal educado.
Que foi agora, raposa cri-cri.
E eles?
Onde?
Aí, olhando a gente.
Ah, é mesmo, foi mal.
Até amanhã para você que está lendo, ou melhor, diz aí raposa.
Até a próxima história.

Joakim Antonio 

"Sirvo-me de animais para instruir os homens. Procuro tornar o vício ridículo por não poder atacá-lo com braço de Hércules. Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem, o vício à virtude, a tolice ao bom senso... Uma moral nua provoca o tédio. O conto faz passar o preceito com ele; nessa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar, pois contar por contar me parece de pouca monta." Jean de La Fontaine (  Na introdução da sua primeira edição do livro “Fábulas”)  

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Namastê - Descortinando Tenzin Gyatso (pacifista)


 "Sê gentil sempre que for possível. É sempre possível."

Andar no caos
e nele
descobrir a ordem

Não estar
em paz
por isolamento

De ouvidos
e olhos
fechados

Com cabeça
e corpo
congelados

Quero a paz
que vem
do interior

Queimando
a casca
exterior

E talvez
moldando
a mim

O mundo
mude
também

Joakim Antonio 

Se você quer transformar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior. Estas atitudes se refletirão em mudanças positivas no seu ambiente familiar. Deste ponto em diante, as mudanças se expandirão em proporções cada vez maiores." Tenzin Gyatso 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Jean "Multi" Cocteau - Descortinando Jean Cocteau (poeta)


Ele vai, volta e faz tudo ao mesmo tempo, agora.


Não importa a arte que venha depois, de que família veio, se o entenderam ou os apelidos que teve. Ele nunca conseguirá abandonar seu primeiro nome, Poeta é para sempre. 

Joakim Antonio



"Todo poema é um escudo de armas.
Tem que ser decifrado.
Quanto sangue, quantas lágrimas
em troca desses machados,
dessas amordaças, desses unicórnios,
dessas tochas, dessas torres,
desses martelos, dessas plantações
de estrelas e desses campos de azul!
Livre para escolher as faces,
as formas, gestos, tons, atos,
lugares que o agradem,
ele compõe um real documentário
de eventos irreais. O músico
sublinha o ruído e o silêncio."

Jean Cocteau  - Epígrafe do filme Sangue do Poeta

domingo, 3 de julho de 2016

Concursos Literários do Mês de Julho de 2016




Concursos Literários do Mês de Julho de 2016 


Confira também a lista completa dos Concursos do Ano e a lista das Seleções Permanentes.

As datas nos tópicos referem-se ao prazo limite para realizar a inscrição.

Legenda:
$ - Prêmio em dinheiro
@ - Inscrição pela internet
# - Voltado a público restrito


Lista dos concursos em aberto - Julho


Julho


01.07.2016 - 3º Festival de Poema e Prosa de Porto Feliz (#Brasil - Contos, Crônicas e Poemas - @)

04.07.2015 - Antologia "Concurso Cultural Monteiro Lobato" (#Vale do Paraíba - Contos e Crônicas)



15.07.2016 - Prémio Literário "Nortear - Jovens Escritores" (#Norte de Portugal e Galiza - Livros Inéditos / Contos - $)


18.07.2016 - 12º Concurso Literário Mario Quintana (#Brasil - Contos, Crônica e Poemas)



sexta-feira, 1 de julho de 2016

O poeta ao céu - Descortinando Alceu Valença (compositor)


No nordeste a poesia impera, o novo nasce até no seco e com bravura e rapidez, toma conta do país.

É de lá que vem Alceu, aquele menino dos Valença, que todo mundo pousa os olhos para ver no que deu. Crescendo em meio ao tradicional misturado com o contemporâneo, absorvendo tudo, das cirandas de menino ao Rock & Blues americano. Construído pelo amor das mulheres, desde a que lhe apresentou a poesia, ainda levado pelas mãos, até as que, levadas por suas mãos, conheceram a poesia.

Talvez fosse inevitável que se tornasse poeta, e como todo poeta, não teve medo de ousar e renovar seu mundo, assim, de verso em verso, Alceu renovou a música, porque além de ousar, ele é daqueles raros que acerta o mote, criando no seu caldeirão a composição certa, que como magia, canta e encanta corações.


Alceu Valença é múltiplo e possui várias alcunhas, mas antes de tudo, ele é um Poeta.


Joakim Antonio 


"Antes de me tornar músico, eu era poeta. Sempre tive atração pela língua portuguesa. Penso muito rápido e a palavra escrita atenua a velocidade do pensamento” - Alceu Valença

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